terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O real mundo paralelo do futebol


“Nas quatro linhas tudo pode”, “o que acontece em campo, fica em campo”. Essas são frases comuns no meio do futebol, que talvez mostre a face de um mundo paralelo no principal esporte nacional. Reconheço (falarei com mais calma em alguns parágrafos abaixo) as “fraturas” sociais que existem na humanidade. Porém, no futebol elas ficam expostas da forma mais nua e crua possível.

Usando o Brasil, para não me alongar muito, como exemplo. O racismo existe? Sim (desculpa Ali Kamel, mas existe, cara). No entanto, convenhamos, a maioria das pessoas no mínimo ficariam constrangidas em chamar em público um negro de macaco. Porém, no futebol, não. Numa partida é bem comum após um jogador (negro) fazer algo errado (ou simplesmente estar em campo), ouvimos coisas do tipo: “vai, macaco”, “tinha que ser negro, viu”, “vai carvão”, etc...etc...

Homofobia é outro tabu (no Brasil, até mais grave que o racismo). Apesar de ainda pequeno (proporcionalmente), homossexuais estão presentes em nossa sociedade, sejam eles professores, políticos e até lutadores de MMA. Todavia, não no futebol. Nele, apesar de todo mundo saber da existência, é melhor fingir que não: “'viado' é o jogador do outro time. No meu mesmo, não”. Isso sem contar a homofobia aberta de todas as torcidas. Até porque, “'viado' (ou 'bambi') é o torcedor do outro time. No meu, não tem disso”. Inclusive já falei um pouco sobre isso no “a inabalável cultura da repulsa ao 24”. Sobre o tema, saindo rapidinho do Brasil, vale a pena pesquisar sobre a história de Fashanu (primeiro jogador famoso a assumir a homoafetividade).

Outro ponto da “sociedade alternativa” é a participação (?!) da mulher. Apesar de “furos” (e falta de igualdade) elas estão presente em diversos meios “masculinos”. No entanto, claro, no futebol isso ainda é visto com estranheza. Ok. Talvez o caminho não seja um “futebol misto” (times que tenham homens e mulheres), beleza, assim como é em vários esportes a divisão é totalmente compreensível. Mas, por que “só” o homem entende de futebol? Por que o número de mulheres no estádio é ínfimo se comparado ao dos homens?. Ou pior, por que quando é uma bandeira (ou auxiliar), por exemplo, ela está sujeita a todo o tipo de machismo baixo, onde, o mais leve (sim, o mais leve) é: “deveria estar na cozinha lá de casa”. E isso tudo é visto apenas como “uma saudável provocação”?. Sobre o tema indico esse texto.

A violência também entra na questão. É claro que o Brasil é um “país violento” (e bonito por natureza). Porém, sempre causará uma certa reação você ver alguém saindo no tapa com outro, ou uma briga generalizada. No futebol, não. No máximo você vai dizer: “ahhh é só briga de torcida organizada”. A violência é acolhida como algo “normal” e do “dia-dia” do jogo.

Tá!. Eu sei. O amigx que leu até o momento o texto deve estar pensando: “óóó... como se isso só acontece-se no futebol”. Eu sei... eu sei... Todas as coisas citadas acontecem no dia-dia e fazem parte (infelizmente) da sociedade. Mas, como disse, no “meio do futebol” o negócio é tratado como natural. Passam de, na pior das hipóteses, uma “forma errada de se expressar”, para “ahhh... aqui eu posso”.

É evidente que o futebol não traz um mundo paralelo, pelo contrário, ele traz o mundo real. Ele expõe, de forma crua (e cruel), algumas mazelas da nossa sociedade. Mas, quando se estabelece a idea de um “espaço paralelo”, quebra uma noção bem pós-positiva de “convívio social”:

Para Durkeim mesmo as ações mais individuais tem a característica de ser uma pressão social sobre o individuo. As regras de convívio social acabam por algemar as mãos deste. A estrutura da sociedade molda o homem, determina a politica, a cultura, o lazer... Na sociologia do autor, a sociedade é tão forte que a individualidade desaparece. Então temos o papel da educação; forjar o ser social, lhe incutindo regras que, aos poucos, e de forma resignada, são interiorizadas.
 

Ou seja, se no “futebol tudo pode”. Eu posso “falar para o mundo” que para mim “negro é macaco”, o futebol me dá essa liberdade, sem represálias. Se não gosto da conviver com gay. Legal! O futebol me permite isso. E mulher... Em alguns espaços elas “mandam em mim”, no futebol não há esse risco... E claro, preciso dar uns tapas em alguém sem precisar arrumar um motivo aparente? O futebol tá lá me permitindo isso.

É evidente que o problema não está no esporte em si. E sim, em nossa sociedade. Mas, esse lado diria terapêutico do futebol (de forma negativa), apenas enfraquece um meio que, tanto serve de integração social.

Isso é o momento do futebol. Estou indo, mas posso voltar. 
Joel Santana.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A resignação Ideologica-Social II: A "elitização" dos estádios


Primeiro, é sempre bom deixar claro que sou totalmente contra a higienização dos estádios (indico esse link: clique aqui) e o modelo “teatral” de torcida (indico esse link: clique aqui). Ingressos a preços de R$ 100, R$ 200 (os mais baratos), são uma afronta ao esporte mais popular do país. Costumo dizer que a gente não deve fazer com que o futebol se torne um espetáculo de teatro. E sim, o contrário, que o teatro fique mais popular e acessível. 

Dito isso, vamos ao que me incomoda e ao motivo do post, que são (para variar) pessoas que querem ensinar o pobre a ser pobre, ou então, que glamourizam ou teorizam, com um cafajestimo intelectual de dar inveja a muito vejista por aí, no conforto do seu lar (ou cabine), o “sofrimento” alheio. Algo que, inclusive, já falei em outro post (clique aqui

Mas, o assunto é futebol. Particularmente me deixa extremamente irritado quando alguns hipócritas falam sobre as novas Arenas e a modernização do futebol brasileiro como absurdo. Já li (e ouvi) coisas do tipo:


“Esses estádios acabaram com a alma do futebol”



“O Fosso era coisa mais linda do mundo”, (Rivellino).



“O torcedor agora leva o Ipad para o campo e não o Rádio de Pilha. Isso é triste". 



“Estão querendo colocar o torcedor educado e tirar o desdentado dos estádios”. (João Canalha)


Entre outras coisas que você pode ver nesse link> http://www.youtube.com/watch?v=D9tqYSjZbUg (no Cartão Verde do dia 26/11. Do minuto 40 ao 43)

Também nesse programa, citaram um dos maiores absurdos que li ultimamente, de um nível de saudosismo e desonestidade intelectual nauseante, esse artigo> http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,business-fc-,1095077,0.htm

Que tem absurdos do tipo:


“Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”.



“Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”.



“Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. 

Pausa pra vomitar... 


Voltando...

Pronto, depois de tanto absurdo o que falar? Será que realmente alguns desses “gênios” foram mesmo a um Estádio de futebol?

O fosso é importante? mas, será que eles realmente sabem o risco que ele pode trazer> http://esportes.terra.com.br/futebol/libertadores2007/interna/0,,OI1605247-EI8224,00.html além de, diferente das "maldosas Arenas", como ele (o fosso) deixa o "povo" distante dos atletas.

Será que para eles, mesmo o Ipad, pod, pud, etc. sendo algo que representa uma evolução natural da tecnologia, deve ser restrito apenas aos ricos? Isso me lembra daquela frase: “Pra que pobre com celular. Pobre precisa disso não. Dois gritos pela janela já resolve o problema”. E os educados? Espera... espera... Quer dizer que o pobre, o “povão” no estádio é (só) aquele que fala palavrão, xinga a mãe do juiz e manda o atacante ruim do seu time “tomar no cu” (Ei! Felipe Azevedo, vai tomar no cu!!”), isso sem contar no “desdentado”, que até entendi o que ele quis falar, mas, não pode-se negar o vil estereótipo. Vindo de uma família pobre e convivendo com eles até hoje (óbvio!), realmente me deixa muito "feliz" ver essas pessoas sendo tratadas de forma esteriotipada e animalesca. Macunaíma morreu? Acho que não. E o Jeca Tatu? Ahhh é... Esse é o representante das torcidas do interior.

Mas, vamos ao caso Arruda. O Estádio realmente é bem legal, o clima do jogo foi maravilhoso, motivo: ERA UM JOGO DECISIVO. Ele deveria assistir um Santa Cruz x Araripina pelo campeonato pernambucano e ver a diferença. E mesmo assim, falar que: “Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”, é outra desonestidade (e mentira!. Clique aqui) sem tamanho. Sabe o que isso me lembra: “ahhh gente... ele é pobre, já sofreu muito na vida, vai entender” ou “O nordestino é antes de tudo um forte”, estereótipos e mais estereótipos que nos são jogados goela abaixo. Não tem aquele ditado: "seja feliz com o que Deus lhe deu e dê o que restou para mim", bem comum entre Pastor sem-vergonha. Então, segue quase a mesma lógica. 

Mas, voltando aos estádios. Normalmente costumo ir a Ilha do Retiro que, assim como o Arruda, é de uma falta de organização incrível. E não há nada pior do que ir aos banheiros imundos de lá. Não há nada que me cause mais constrangimento do que ver torcedores em cadeiras de rodas sendo obrigados a ocupar espaços torpes e praticamente sem visão pro campo. Isso sem falar de senhores de idade subindo arquibancadas (de cimento) mal planejadas. Mas, claro, para os torcedores de cabine isso faz parte do show. É o famoso “no cu dos outros é refresco”. Até porque, muitos dos jornalistas que falam isso, se não tiverem ar-condicionado na sua cabine vão reclamar, né?
Mas, tem mais coisas. E talvez, o maior absurdo de todos (é, dá para piorar): “Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”. Isso só me lembra essas cenas no, adivinha, Arruda!> http://www.youtube.com/watch?v=MDvFl6G1iks


Só há povão ali. Porém, não vejo o clima de festa. Sei lá... Mas, se nossos "gênios" dizem que estádio é feito pra caber e que: “Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. Quem sou eu pra discutir né?. Engraçado... É o Arruda. Tá cabendo, mas, não vejo o povão sorri. (Ver vídeo desse jogo: http://www.youtube.com/watch?v=V8iBXhDXKVw)

Mas, e as "maldosas" Arenas? Então... Dia desses fui na Arena Pernambuco. Péssimo para chegar. Muito ruim mesmo. No entanto, lá dentro o clima de torcida, o “povão” era o mesmo, sabe por que? Porque o preço do Ingresso era aceitável. Fui e voltei de metrô (e ônibus) no meio do povão (não, não vi nenhum desses "gênios" do saudosismo lá), e, era impressionante como as pessoas gostaram de sentir um pouco de conforto. Era interessante ouvir coisas do tipo: "bem que Ilha do Retiro poderia ser assim", ou "Tomara que façam a Arena na Ilha logo, é massa aqui, mas, é longe". Sabe por que? Questão de dignidade. O problema não está no local, não tentem criar teorias nojentas que, com um ar de “progressista”, são segregadoras. Aquela coisa meio: "Ahhh deixa o pobre lá. Mas, bem longe de mim, sabe".

A lotação e outras coisas que citam com glamour não fazem parte da "alma do povão", ninguém gosta de ser tratado como cachorro (Inclusive, esse termo é errado. Tipo, é certo tratar um cachorro como cachorro? mas, enfim...) voltando ao tema... É claro que figuras "peculiares" (que você encontrava na geral), estão no povão, e que elas são ótimas para o jogo. No entanto, que essas figuras sejam algo natural, que tenham sua dignidade respeitada e que não sejam estereotipadas. (No jogo da Arena mesmo tinha um cara fantasiado de Leão ao meu lado). Não tentem querer ensinar ao povão a forma dele se portar. Tipo: "Não cara, você é pobre. Vá para o estádio de chinelo de dedo, de preferência num metrô lotado e volte bêbado pra casa. Ahhh, mas, se quiser ir com uma fantasia, tá beleza também". 

O grande problema está nos preços, que, mesmo com as Arenas, no geral, não tiveram um grande aumento (salve exceções). O problema está no mercado "selvagem", que, mesmo sem as arenas, já existia. Ou será que foi o conforto dos novos estádios que trouxe o capitalismo selvagem?. Mas, isso não significa que, como diria Zé Ramalho, o povo queira ser tratado (ou ter uma vida) como gado, por mais que tentem criar esse clima de resignação.

O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual.
Joãozinho Trinta

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A capacidade do direito


Mês passado tive o prazer de ter um texto publicado pelo sociedade racionalista (ver aqui). 

Diferente daqui, lá tive vários comentários em relação ao texto (principalmente pelo facebook), respondi uns, e no mais, busquei observar os argumentos, o que me trouxe a ideia de fazer esse post (estou meio sem ideias, admito).

O tema seria até meio óbvio se não fosse tão recorrente o “erro” que é o de confundir direito (nesse caso, a opinião) com a capacidade de (nesse caso, de opinar).

Vi muitas falando “mas não podemos acabar com o direito das pessoas de opinarem”, “isso é censura”, etc. Não, não é. Todas as pessoas tem capacidade de fazer o que bem entenderem (dentro de suas limitações), eu posso odiar seja quem for, posso matar, estuprar, pular de uma ponte ou torcer pelo Palmeiras. É uma capacidade humana. Porém, muitas dessas coisas não são um “direito”.

Seja em qual sistema for: Commom Law, Romano-germânico, Lei Islâmica, etc (ver aqui). O “direito” estabelecerá normas de convivência, e qualquer coisa que venha a ferir essas normas, dentro do paradigma aceito, deixa de ser um “direito” (semanticamente falando). É claro, que muitos podem se apegar, ao exemplo da “Antígona” de Sofocles (ver aqui), e questionar se o que é estabelecido como direito realmente é ético (e um direito). Ok. Realmente muitas coisas podem não “se basear na lei”, mas, ser de alguma forma um direito.

No entanto, de forma geral nos apegamos a teoria inicial (natural) do direito (ver aqui) que se baseia na razão (sempre tão maltratada). É racional, ético, correto, “certo” (falarei disso abaixo), uma pessoa (adulto) estuprar um criança? Não! Então ele não tem esse direito. Ele tem apenas a capacidade de fazer tamanha barbaridade. E para isso volto para questão da opinião, as pessoas podem ter a capacidade de falarem o que bem entenderem, mas, a partir do momento em que o que é falado venha a atacar/agredir diretamente outra pessoa (ao meu ver uma agressão verbal pode trazer os mesmos danos de uma agressão física), essa “opinião” deixa de ser um direito e passa a ser passível de punição, etc...etc...

Sobre a questão do “certo” e “errado” outro ponto amplamente debatido. Uso os argumentos de Igor nos comentários da postagem no sociedade racionalista (ver aqui):

Forçar uma criança de quatro anos a ter relações sexuais... é certo ou errado?

Queimar viva uma pessoa... é certo ou errado?

Escravizar humanos... é certo ou errado?

Bem, numa ótica exacerbada (digamos assim) de relativismo moral, nunca iremos ter uma resposta. Isso porque essa ótica se baseia em contestações ad eternum, ou seja, não se busca a resposta, mas sim sempre contestar!

Agora, eu consigo afirmar que as três situações são condutas erradas? Como? Por diversos fatores! Primeiro, em nossa sociedade (brasileira), as três são crimes. Segundo que biologicamente as três impingem dor física e psicológica, causam problemas na saúde e na ordem moral, de igual forma causam sofrimento, e dá ao autor a condição de alterar a vida da outra pessoa – retirando-lhe o controle de sua própria vida. Terceiro que tivemos inúmeros exemplos para demonstrar que ambas as situações são necessariamente más e que devemos repudiá-la, o que nos dá possibilidade de convencionar que tais atitudes hediondas são crimes!

E isso tudo considerando o relativismo moral. Não estou aqui postulando pelo absolutismo moral, que tanto é defendido, por exemplo, em alguns sistemas religiosos!

Isso tudo pode mudar no futuro? Pode, assim como alguma dessas visões foram mudadas diante o passado (a escravidão, por exemplo). E isso demonstra que as sociedades não são meras estruturas inatas, mas sim dinâmicas, sempre agregando novos conhecimentos que possam influir nas convenções sociais. Mas isso também mostra que para não se cair na armadilha do imobilismo, ou seja, ficar parado sem definir nada por ausência de resposta 100% correta (e sempre haverá a probabilidade de erro, mesmo que mínima), teremos em determinado momento, com nossa capacidade de discernimento e com o conhecimento adquirido, ousar, tomar uma posição, convencioná-la e agir de acordo com esta. Isto é o que cria o direito e o dever! Podemos assim ter noção do que é certo ou errado, pois, afinal, mesmo que se chegue a um consenso entre filósofos e teóricos nesta eterna discussão, nós, “os leigos”, iremos ser os juízes da questão!

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Estava lendo um texto na internet sobre o relativismo pós-moderno, e em determinado trecho lembrei justamente deste artigo:

“ Esse relativismo também é pernicioso por tornar a discussão de idéias vazia de sentido. Se cada qual tem sua verdade, não há necessidade de levar a sério os argumentos de outrem ou de justificar as nossas próprias idéias, que também seriam apenas pontos de vista. Um desleixo intelectual que é problemático, pois se todos os discursos se equivalem como meras "narrativas", então somos levados a admitir que mesmo os preconceitos racistas, sexistas e toda forma de fundamentalismos religiosos são igualmente legítimos.”


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"A força do direito deve superar o direito da força".Rui Barbosa

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Embargos à democracia ou à democracia dos embargos?


Toda esta polêmica dos embargos infringentes (votado ontem no STF) poderia ser levado para uma discussão muito mais ampla e ao meu ver proveitosa sobre: Lei x ética x democracia.

Uma declaração que sintetiza bem o que o post pretende é a do ministro Luís Roberto Barroso que disse:

“Não se deve votar pela multidão” (clique aqui para ler)

Frase muito interessante e sintomática sobre o paradoxo: Lei x Ética x Democracia.

Através dela, pode-se discutir o conceito de lei. O que é? Até onde há limites para ela e sua capacidade em ser justa; e partindo desse ponto, debater se a justiça caminha ao lado da ética e da democracia, além de ser questionar os limites deste último.

Os "malditos" embargos infringentes estão totalmente dentro da lei e sendo assim, é um direito de todos os acusados. Não é a primeira vez que ocorre, nem será a última, talvez seja a de maior mídia, mas, é um direito. Até porque: "Todos tem direito a defesa", é um preceito básico da... e aí voltamos para ela... Lei (nacional).

No entanto, questiona-se a ética (ou falta dela) de se realizar um novo julgamento. Mas, é realmente “ponto comum” que houve falta de ética? Vejamos. Se é um direito (de todos) a ampla defesa, então, dizer que não estão dentro da "ética", seria um erro, certo?...Exemplo, se me sentisse prejudicado eu me defenderia na lei, independente do que terceiros possam achar, e me submeteria ao julgamento dos representantes dela (a lei). E aí não há como discutir a ética disso (ou há?). E, analisando este caso, vejo que existe uma indefinição interna (dos juízes) sobre a "justiça", ou seja, meio que legitima o direito a defesa por ser algo de grande complexidade (não costumo aceitar tão facilmente "teorias da conspiração" e prefiro evitar um certo senso-comum de “Pizza”).

E por fim entramos na democracia, é claro que o desejo da maioria é de que todos os participantes do mensalão estivessem presos (para alguns, inclusive quem não participou. Mas, enfim). Porém, até onde é ético e está na lei à "democracia plena"?. Odeio esse exemplo, mas: foi à “democracia plena” que escolheu Jesus ou invés de Barabás...Sei lá... talvez se o "salvador" tivesse um bom advogado e um julgamento feito por pessoas "preparadas" as coisas seriam diferentes. Ou como vi alguém falando, se fosse para a “opinião pública” (muito atrelada a opinião institucional da mídia) decidir questões jurídicas, era melhor acabar com o STF e voltar com o “você decide”. Então, até onde pode ir à "democracia". O desejo da maioria, talvez (eu disse talvez) pautado na ética ("de grupo"), pode sobrepor ao direito individual de estar na lei?

Enfim, esse julgamento, devido a toda a publicidade, deveria ser visto muito além de aforismas simples como: "é pizza", "são comprados!", "é a mídia que está fazendo isso". É algo mais complexo, que poderia, inclusive, servir de ponta para mudanças institucionais em relação à lei, ética e democracia ou mais embargos.

"A democracia constitui necessariamente um despotismo, porquanto estabelece um poder executivo contrário à vontade geral. Sendo possível que todos decidam contra um cuja opinião possa diferir, a vontade de todos não é por tanto a de todos, o qual é contraditório e oposto à liberdade". Kant.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A resignação ideológica-social


Apesar de não ser anti-religião/religiosidade (como pode ser visto no post anterior) se tem algo que acho insuportável nos dogmas (em algumas religiões) é a resignação: “ahhh minha vida é assim (uma merda) porque Deus quis assim”. É bem comum ouvir isso. Mas, muito pior que a resignação religiosa, é a que chamarei de “resignação ideológica social”. A que ao invés de colocar a “culpa” em Deus, coloca nos “padrões e regras sociais”.

Abordarei dois exemplos para não alongar muito, mas, existem diversos. Um é em relação à pobreza. É óbvio que o fato da pessoa ser pobre não significa que ela seja pior (em nenhum nível possível) que uma “classe média” ou rica, claro que não. Porém, isso também não significa que ela deve “achar ótimo” ser pobre, ou ser resignado a ser pobre porque: “Ser pobre é legal, é a sociedade consumista que quer criar padrões de consumo e riqueza para você”. É claro, falando de forma “popular” que a pessoa não precisa ser um escroto (#classemédiasofre), esbanjador, porco capitalista (pra ficar de boas com os amigxs), etc. No entanto, o paralelo a esse tipo de indivíduo, principalmente no nosso modelo (atual) de sociedade ocidental, não é “ser pobre”, a pessoa pode muito bem ter “de tudo” e ser totalmente “sociável” (eu sei, é um termo amplo).

As vezes me passa a seguinte impressão: Que determinados grupos querem que o pobre tenha seus “direitos naturais” respeitados (saúde, casa, comida), no entanto, ter um carro e uma Sky, é um pouco demais, né?... Aí vem sempre lugares comuns: “fulaninho é um cara legal. Nunca saiu da sua favela”, ou “fulaninho depois que ficou ~rico~ traiu as origens e foi morar em ~bairro nobre~”. É evidente (apesar de muitos não notarem) que, se a pessoa se sente bem no local que vive, seja uma favela ou uma cobertura na praia, ótimo! Ela não é menos digna que ninguém (pelo local que vive). No entanto, não significa que ela não possa “deixar sua comunidade” porque tem mais condições (ou a opção de). Até porque, em favelas também existem vizinhos malas. E seguindo essa lógica, uma pessoa não deveria deixar sua cidade, estado ou país em busca de melhores condições de estudo ou vida (e o pior é que conheço gente que realmente pensa assim).

Outro ponto da “resignação ideológica social” são os “padrões de beleza”. É óbvio que existem “padrões de beleza” (normalmente europeus) que são “vendidos” pela mídia e oprimem outros tipos de “beleza”. E também é claro que a beleza natural (do cabelo, corpo, etc), deve ser respeitada e tratada com igualdade. Porém, isso não significa que a pessoa não possa mudar ou buscar o “melhor” para si. Exemplo: Uma pessoa mais gorda não deve se envergonhar ou se sentir inferiorizada pelo seu peso, e é massa quando se senti bem com ele. No entanto, se a opção dela é ficar mais magra, isso não a torna pior ou “alienada” (isso sem levar em consideração que obesidade, muitas vezes, é prejudicial a saúde). Fico com muita vergonha alheia com aquela velha forçada de barra, muitas vezes hipócrita, sobre o peso alheio, que é: “ahhh garota você é linda assim, gordinha, não mude, não deixa a imposição dos ~padrões de beleza sociais~ te oprimirem”. Tem algo mais piegas, falso e “auto-ajuda”? É claro, na maioria dos casos a hipocrisia é tão grande que o mesmo que “recrimina” uma mudança, ao ver que o outro perdeu uns quilinhos falará: “Nossa. Você ta mais bonita, parece mais jovem. Perdeu peso foi?”.

Outro ponto da discussão tá no cabelo (normalmente de negros). É evidente (nem para todos) que todo tipo de cabelo é bonito e o único “cabelo ruim” que pode existir é o que ta caindo ou que tenha fungos. Porém, muitas vezes vejo uma imposição ideológica para algumas pessoas negras de “não alisarem o cabelo”. Particularmente acho lindo cabelo cacheado, mas entenderia perfeitamente uma pessoa que queira mudar. Normal pô. A pessoa acordou, se olho no espelho e não gostou do que viu (e vê sempre) e resolveu mudar o visual alisando o cabelo, poderia fazer isso também, fazendo tranças, pintando de outra cor, cortando, etc. Isso não fará dela mais ou menos negro ou “mais alienado”.

É como disse, o que para alguns é “obra de Deus”, para outros é “opressão da sociedade” (Marx ficaria orgulhoso). E nesse meio termo as individualidades vão se perdendo. 


"Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política..." Charles Chaplin.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre as santas quebradas, autismo ideológico e a síndrome de militante arrogante


Tenho, de coração e sem hipocrisia nenhuma, a maior simpatia e principalmente respeito pela Marcha das Vadias e o Movimento Feminista no geral (salve algumas exceções = Femen). Até porque, mesmo conhecendo um pouco, seria muita cara de pau minha criticar o feminismo (como movimento), mas, posso falar sobre as atitudes. 

Para começar, boa parte do que poderia falar se resume a esses dois textos> http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/07/guest-post-entre-cruz-e-rosa-luxemburgo.html e http://thaliedrumond.com/2013/07/para-colocar-os-pingos-nos-is/. Mas, vou ampliar um pouco o assunto. 

Nem preciso dizer que a atitude de quebrar imagens e crucifixos na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro (na última semana), foi de uma minoria no grupo, até porque as próprias organizadoras já falaram sobre isso. Ok. Mas é claro que preciso frisar o “nojinho” que tive de alguns “autistas ideológicos” neste fim de semana, que resumiram o assunto a Igreja x Feministas ou “mídia má” x “feministas boas”, e coisas do tipo. Gosto de acreditar que seja inocência, os famosos “idiotas úteis” (odeio esse termo!)... 

Porém, vamos lá... Alguns argumentos foram: “ahhh é a revolta contra a Igreja opressora foi algo na emoção”. Ok, entendo a revolta, mas, creio que o protesto em si já é o “grito” (em conjunto) que expressa essa revolta. E não venham me falar em “emoção” que ninguém sai com um santo daquele de casa sem saber o que vai fazer. E isso sem contar, claro, que, quando se quebra os santos você resume o protesto apenas à Igreja Católica e como sabemos, o único problema é ela, certo? Os pentecostais e Cia quase não são preconceituosos. “Ahhh mas, quando fazemos isso, somos a minoria revoltada, não é uma ação, é uma resposta”. Uma resposta igual aos pastores da Universal quando fazem isso? E mesmo assim, desde quando esse grupo representa (ideologicamente) a “minoria” (não falo em tamanho, falo em opressão). Não suas imbecis. Vocês não são as (únicas) oprimidas. Não tentem agir como se só vocês soubessem o que é “ser mulher” (coisa que eu não sei, óbvio). Mas, recorro a esse outro ótimo texto para resumir essa linha de pensamento> http://outraspalavras.net/posts/a-sindrome-da-militancia-arrogante/

Voltando... Em outro texto que me deu tremenda vergonha alheia vi> “Mas o que o feminismo ganha com isso? A opinião pública ficará contra nós”. 

Deixa eu te contar um segredo: a opinião pública nunca esteve a favor do feminismo. Nem se todas as feministas usassem terninhos cor de rosa, fizessem escova e se depilassem, a opinião pública e a mídia estariam nos apoiando. 

Pera... pera... pera... mais síndrome de militância arrogante. Ok. Concordo, a mídia não ficaria “a favor”, mas, também não precisava das motivo para ela ser contra. Agora como assim a “opinião pública é contra”?. Primeiro: quem é essa “opinião pública”? E segundo, oxe, só vale feminista? A “opinião pública” é machista? Ou a mídia faz da “opinião pública” machista?. A mulher (não feminista) lá da favela, católica, que abortou aos 15, mas, nunca ouviu falar de feminismo não é contra o aborto?, por exemplo. O feminismo (de fato) chega a ela? Pera... o assunto é outro, perdão. Enfim, como assim “vamos fazer isso mesmo porque a ~opinião pública~ será sempre contra nós”, não gente, autismo ideológico, não. O MST, por exemplo, “sempre” será do lado oposto a mídia, mas, não é por isso que eles saem por ai ocupando a plantação de pequenos agricultores, não. A ~opinião pública~ é importante, sim. Não façam o jogo da direita de que “o brasileiro é conservador”, existem fatores culturais para isso, e esse axioma não é verdadeiro. 

Eu sei que a maioria que tomou essa atitude não entende de semiótica, religião e da importância da mesma na vida dos outros. Talvez elas não saibam que as imagens quebradas são as quais as mulheres, agredidas pelos seus maridos, se ajoelham para chorar e encontrar conforto (não vejo isso como positivo, ok), as imagens quebradas, são as mesmas, que, mesmo numa catarse as vezes “sem sentido”, une negros, brancos, ricos, pobres, etc. É a mesma que várias e várias mulheres se ajoelham pedindo para que seca acabe, para que seu filhx consiga um emprego, para que a polícia não invada seu barraco. As imagens, alvo da revolta, são as mesmas que, na falta de oportunidades, trazem esperança. E não é a religião, as imagens não representam (apenas) isso, essas pessoas não estão nem ai se o Papa é a favor ou contra o aborto, se a Igreja oprime ou não, ou mesmo o que está escrito na nova encíclica do Papal. 

Também fiquei com a impressão que quebraram a imagem de Maria porque ela representa a “santa” (nem santa, nem puta). Ok. Mas, sei lá. Se a gente for analisar, elas quebraram a imagem de uma figura histórica que, no meio de uma sociedade machista e sob o risco de ser morta, aceitou “ter um filho fora do casamento”, sinal, no mínimo, de coragem (estou falando como figura histórica, ok). Elas quebram a imagem de uma das poucas mulheres que são retratadas com maior destaque do que os homens na história, que causa, talvez por ser mulher, desconforto em parte da sociedade machista. “É um absurdo essa mulher ser mais adorada do que Jesus”, (ver> http://osentidoeoverbo.blogspot.com.br/2011/08/maria-maior-invasao-de-privacidade-da.html) dizem os evangélicos. Sei lá... As vezes acho que a figura da imagem quebrada é mais feminista do que muitas que estavam lá. 

Ahhh sim. Já que a intenção é destruir símbolos da opressão. Sei lá. Seria legal não ir, e de preferência destruir, shoppings, empresas que realizam comerciais machistas, a globo, a Record, o SBT, o templo da Universal, e se for para ser alguma imagem, que seja a de São Pedro...É claro... 


“Quem quer destruir pela violência física os simbolos do capitalismo, deveria então rasgar dinheiro - o simbolo maior do capitalismo” Emir Sader.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quase deuses


Não tenho capacidade institucional para comentar (com propriedade) sobre o “Ato Médico” e o programa “Mais médicos”, apesar de ter minha opinião formada. Porém, eu posso “não poder” falar tecnicamente sobre o “meio” dos médicos, mas, posso comentar sobre suas atitudes. E é sobre isso que abordarei.

Já trabalhei com médicos e aquele velho ditado: “Médicos não se acham deuses, tem certeza!”, cai como uma luva em boa parte deles e esses “protestos protecionistas” recentes mostra bem isso. Mas será que a culpa é só deles? Por que outras classes que possuem, de certo modo, a mesma arrogância dos médicos, como jornalistas (da qual faço parte), engenheiros e divulgadores da Telexfree não conseguem interferir diretamente no meio ou possuem o mesmo respaldo que os “nobres” da medicina.

A resposta talvez seja porque socialmente os “doutores” (e só por usarem esse termo já diz muito), são tratados como uma classe “acima da lei”, inquestionáveis. O “doutor” disse e a gente concorda, o máximo que pode fazer é ouvir a opinião de outro “doutor”. Tanto é que, em quase todas as outras profissões há o reconhecimento geral do mérito de quem realiza o trabalho, mesmo que com uma certa hierarquia, na medicina, não. Se alguém salvou sua vida: “foi o doutor”, nunca (ou quase) foi o pré-atendimento dos bombeiros, o pronto atendimento da enfermeira ou mesmo o pós-atendimento de outras áreas (fisioterapia), por exemplo.

Outro ponto importante é a infalibilidade da classe. Quando um jornalista erra, a classe ou no mínimo o jornal (ou emissora) é criticada por inteiro pelo erro de um, quando um policial erra a policia e seus métodos (do quais não concordo) são criticados como um todo. Porém, quando o medico erra, ele tem nome, endereço e não representa o todo, não é um erro “de classe”, é o erro de uma pessoa.

Para essa, ao meu ver, supervalorização, há sempre a indagação “ah mas os doutores estudaram muito e merecem esse know how”. Merecem? Como vivemos numa parcial sociedade capitalista, eles merecem os seus (bons) salários pelo que estudaram/responsabilidade que tem, agora até onde vai o know how (de “deuses”), talvez haja um exagero, pois boa parte dos médicos não salvam vidas sem um equipamento (tecnológico) necessário e para chegar até aí, uma série de classes (profissões) tiveram importância. E mesmo sem as máquinas, o auxílio humano de outras funções é importante, até porque, como já foi dito, sem um bom profissional de enfermagem, um médico terá seu trabalho totalmente dificultado. Pode até salvar vidas, em dados momentos, assim como alguém que tenha conhecimento em primeiros socorros também pode, bombeiros ou até uma pessoa comum, por exemplo.

Além disso, os medicamentos e vacinas que, em alguns casos, também salvam vidas, nem sempre foram criações de médicos. Isso sem falar já utilizada na “medicina tradicional”, porém, ainda pouco valorizada, medicina natural, feita por “não-doutores”. A mídia também tem uma função preponderante para a “construção social do doutor”. É sempre muito abordado os esquemas fraudulentos de corretores, bancários, políticos (claro), da igreja, da polícia, da própria mídia, etc.. etc... Mas, os conluios entre médicos e laboratórios ou empresas de plano de saúde. Até no cinema os “doutores” tem uma imagem de “herói” para “Rambo” nenhum botar defeito. É muito comum filmes onde diversas outras profissões, jornalista, corretor, cozinheiro, vendedor, etc. No entanto, em relação a medicina, mesmo em filmes onde eles são os vilões (como em “um ato de coragem”), de alguma forma terminam sendo exaltados como “salvadores”.

É evidente que é medicina é importantíssima, não discuto isso. Mas, sim, o aspecto de “superiores” que a sociedade cria e eles (como classe) muito bem assimilam, fazendo com que, muitas vezes, deixem de lado a maior obrigação de um médico: servir ao povo. E ah! Antes que você fale: “é, quando tiver doente você vai procurar quem? O chapolin colorado”. Não, claro que não. Talvez eu vá em um médico, assim como, creio eu, quando precisou construir sua casa um médico não contratou outro da mesma profissão, quando precisa se informa um médico não lê artigos pessoais de outros médicos ou mesmo quando for voar de avião não é um médico que pilota. Ahhh sim, e claro, para se tornar médico, passar em vestibulares (seja aqui ou na Bolívia) etc, o “doutor” não aprendeu tudo com outros “doutores”. Quer dizer, sim. Na maioria dos casos aprenderam com os verdadeiros doutores, o professor.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Quem é esse gigante? e em quem ele está pisando...

Leia esse texto>

Esquerda x Direita na avenida Paulista; MPL denuncia “ares fascistas” em SP


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Continuando....


Ontem no “protesto” (ahahaha) aqui em Recife, tive o prazer de discutir com um "sem-partido" desse aí, e é bem isso mesmo... O monstro é feio, e por isso, esconde a cara atrás da bandeira do Brasil. O monstro não tem pauta, não tem proposta, e por isso, brada contra "oportunistas" ou pelo "fim da corrupção"... Sinceramente, não gostaria de falar muito sobre isso, mas, enfim, se antes achava que era um exagero da esquerda essa ideia de golpe, olho para trás, para a história, e vejo que não. Sei que algumas pessoas da direita devem estar com um leve sorriso no rosto com esses fatos, é um erro. Carlos Lacerda (ver no google) "marchou contra Jango" em 1964, mas, ao ver-se traído pela Ditadura Militar, em 1966, passou marchou ao lado dele (Jango) na Frente Ampla. 

Ontem, me senti de fato minoria, e olha que não é porque sou a favor da corrupção, do ato médico, da PEC37 e contra o Bode Gaiato, não. Mas, apenas, porque sou a favor da liberdade plena. De, em meio a uma heterogeneidade de manifestações, os partidos (qualquer um) estejam lá, afinal, como diz o texto: “ muitos desses partidos é que ajudaram a construir a Democracia que permite a todos nós estar na avenida”.

Não vejo problema do PT e cia "de esquerda", perder/sair... mas, nas urnas. Também não vejo problema (e até acho justo) uma "reforma política", mas, através da Constituição (por sinal, não vi NINGUÉM "sem partido" aclamar a Constituição nesses protestos, estranho, não?) ...Querem acabar derrubar a Dilma? ok! (se muitas pessoas querem, não deixa de ser um direito), mas, para colocar quem no lugar, o Michel Temer? ahahahaha... enfim... medo... tristeza... É alguns dos sentimentos que tenho ao ver tudo isso, o que até atrapalha qualquer texto mais produzido, mais “pensando”. Esse, é mais “emoção” mesmo. O povo, como falam, não estava nas ruas em sua plenitude, o povo, como falam, não é o violento, não abaixa a bandeira de ninguém (ignora na maioria das vezes). Enfim, não vou fazer um texto maior... 

Mas, uma analogia que faço do que vi (vai ficar meio estranho) seria daqueles fãs que sempre apoiou seu ídolo, comprou CDs, ia para todos os shows que normalmente tinham um público pequeno. Porém, em um dado momento, esse “artista” se tornou “popular”, se tornou “grife” e quem sempre esteve lá no começo com ele, passou a ser barrado na porta dos shows. E meu medo, é que, em breve, o show acabe. 


Sobre esse protesto em SP:

- Nenhuma era de partidos de direita, como PSDB ou DEM. Não. O ódio “anti-partido” tem um sentido muito claro. (E olha que o PSDB/DEM governa SP há mais de 20 anos)

- Na minha frente, um homem com capacete de motoqueiro e jaqueta de couro tentou bater numa senhora com mais de 60 anos, que carregava uma bandeira vermelha. “O PT não vai sair dessse quarteirão, não vamos deixar o PT pisar aqui, é a nossa avenida”, ele gritava descontrolado. (vi algo exatamente igual aqui em PE)

- Tentei seguir na argumentação (juro que tentei, apesar do barulho e das hostilidades): “mas muitos desses partidos é que ajudaram a construir a Democracia que permite a todos nós estar na avenida”. E ele: “foda-se”. (Passei por algo parecido)."Todo o partido existe para o povo e não para si mesmo." Adenauer , Konrad.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Por que é mais interessante votar na final do BBB do que assinar uma petição “fora Renam”.


A resposta do título da postagem é simples e eu poderia ser direto: Porque um é efetivo e o outro não. Mas, como, igualmente aos analistas políticos, não sou pago para dar “respostas simples”, vou “complicar” um pouco (na verdade eu não sou pago, tá). 

Mais de 40 milhões de pessoas votaram na final do BBB13 para escolher a campeã (Fernanda). É claro, nem vou me dar ao trabalho de explicar a amplitude (midiática) do programa, o apelo, e que, às 23h da noite é mais interessante você estar em casa (assistindo, lendo, dormindo, etc) ao invés de estar em Brasília protestando contra Renam, até porque, como sabemos(?), por mais que as pessoas sejam “animais políticos”, elas não “vivem política” (de maneira direta) 24h. Claro, talvez o “engajado do facebook” viva, sei lá. 

Enfim, voltando, 40 milhões de pessoas votaram e sabiam que, mesmo não sendo para quem (ou o que) votaram, TERIAM RESULTADO, alguém sairia vencedor daquela bagaça lá (tou usando termos mais “jovens” para alcançar um público maior...ahahaha). No entanto, as 1,5 milhões de pessoas que assinaram a “petição online fora Renam”, sabiam (ou deveriam saber) que, isso é apenas simbólico, demonstra uma insatisfação? Sim. É importante? Talvez. É efetivo? NÃO!... E a maioria dos seres humanos, “pasmem”, buscam algo efetivo na sua vida. 

Beira a ingenuidade achar que esse tipo de protesto vai mudar algo... “ahhh mas é isso porque o Brasil não é um país sério”... Não, meu caro ignóbil. É assim, porque a política funciona assim. Ou vocês acham que essa “moda” de “petição online” surgiu aqui? Claro que não! 

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Trecho retirado dela:

“Apesar de serem consideradas instrumentos de pressão popular, as petições virtuais não têm valor jurídico, segundo advogados especializados em direito digital consultados pela BBC Brasil. 

"Por ora, no entanto, não há garantia jurídica pois a lei não reconhece o click", completa o Renato Ópice Blum, advogado e professor de Direito da FGV-SP”. 

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Voltando... “ahhh mas, o povo brasileiro não liga para política, só pensa em futebol e mimimi”... Não, meu caro ignóbil, o povo brasileiro tem a mesma (menor em alguns casos, e maior em outros) “acentuação” para política que outros países (e gosta “menos” de futebol que Inglaterra e Alemanha). Porém, por mais que você discorde, não vivemos uma ditadura, nem em uma situação que as pessoas precisem se mobilizar de forma “dura e agressiva” (não todos, claro) e mesmo que vivêssemos, a MAIORIA não se mobilizaria. Eu sei que isso vai lhe deixar magoado, mas, menos de 10% da população do Egito participou (diretamente) da “primavera árabe”. E, se houvesse efetividade, as pessoas participaram, simples. Exemplo: Uma eleição tem muito mais impacto que o final do BBB (é sério, tem...) 

Mas, voltando aos paralelos (BBB X Renam). Você costuma fazer coisas na sua vida que não tem a MENOR probabilidade de acontecer, apenas por ser algo “simbólico”? Sei lá... Tipo, entregar um bilhete (caso você for solteiro(a) com o dizeres “case-se comigo” para aquela pessoa que você nem sabe o nome, mas, acha linda(o)? (ahhh sim... “beleza”, apesar de ser relativo, é importante, não acreditem no que eles lhe falam)... Acho que não né? Até porque, você sabe que aquilo no máximo provocará risos (ou pena) na pessoa que receber. Então... É assim que funcionam as petições políticas onlines, provocam risos... no máximo, pena... 

Ai você vai me falar... “ahhh, claro, vamos ficar em silêncio, é isso que eles querem”... Pois é, amigo “jenial”, não disse isso, pelo contrário. Aceito e acho que é um direito das pessoas fazerem esse tipo de protesto (apesar de ser bem cômodo) só discordo da “imposição” de “eu faço isso, sou uma pessoa politizada, você não faz porque é manipulado”... Até porque, ao invés de fazer isso (e compartilhar e tals), seria beeemmm mais efetivo, compartilhar, informar e pesquisar, sobre quem é Renam Calheiros. “Por que odiamos eles?”, “por que ele não é o bom para o Brasil?”. “por que ele foi eleito?”, bem, e isso eu não vi sendo compartilhado pelos “arautos da justiça”... 

Sinceramente, não acho que TODO MUNDO deve saber quem é Renam Calheiros... “ahhh mas ele é senador”... Ok..ok... Você sabe o nome dos senadores de Roraima? (não vale pesquisar no Google), sim, eles tem o “mesmo poder de Renam”... “ahhh mas, ele é PRESIDENTE DO SENADO”... OK... ok... justo... Então, você sabe quem eram os últimos presidentes do senado antes da “dupla” Renam e Sarney? (por sinal, sobre Sarney, você sabe qual Estado ele representa? Mais uma vez, não vale pesquisar no Google, por favor) Então...se você não sabe disso, não deveria cobrar que os outros saibam quem é Renam... E, não sabendo, seria mais interessante você compartilhar, postar, informar... QUEM ele é, para depois “pedir assinaturas”, ao invés de “impor o seu gosto”, até porque se você não gosta do BBB, ótimo, é um direito seu, acho o programa meio fútil mesmo, mas, “impor sua verdade”, é complicado... 

Enfim, é claro que a mobilização é importante... Mas, feita, se possível, de forma mais efetiva, sem “modismos”, com o máximo de conhecimento sobre o tema, sobre o que é política e a efetividade que possa ter... 

E... ahhh...ia esquecendo, eu votei para a Fernanda ser campeã do BBB, e meu “desejo” se realizou... E Feliciano não me representa (essa parte final é para deixar tudo na paz... ahahahha)... 


“O princípio da efetividade e o contraditório”. Vi no Google.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Por que não podemos vender nossos órgãos?


E quando à política de doação de órgãos dos Estados Unidos, baseada na crença inabalável de que o altruísmo atenderá à demanda – será que está dando certo?

Não muito. Hoje, nos Estados Unidos, 80.000 pessoas estão na fila de espera por um rim, mas apenas 16.000 transplantes serão realizados este ano* (texto de 2010) o hiato torna-se cada vez maior. Mais de 50.000 candidatos a receptores morreram nos últimos 20 anos, com pelo menos 13.000 saindo da lista de espera, por se tornarem doentes demais para resistirem à cirurgia.

Se o altruísmo fosse à resposta, a demanda por rins seria atendida pela oferta imediata de doadores. Mas não tem sido assim. Essa situação levou algumas pessoas – inclusive, o que não é surpreendente, Gary Becker** - a sugerir o desenvolvimento de um mercado bem regulado de órgãos humanos, no qual os doadores em vida receberiam compensação em dinheiro, bolsas de estudo, isenções fiscais, ou outras formas. Até agora, a proposta tem sido rejeitada com repugnância generalizada e, por enquanto, parece politicamente inviável.

Lembre-se de que o Irã regulou um mercado semelhante quase 30 anos atrás. Embora esse mercado tenha suas falhas, qualquer pessoa no país que precise de transplante de rim não fica em fila de espera, pois a demanda tem sido plenamente atendida. O americano médio provavelmente não considerará o Irã um país de mentalidade avançada; no entanto, algum crédito merece o único país do planeta que reconhece o altruísmo pelo que é – e, muito importante pelo que não é.



*Trecho retirado do livro SuperFreakonomics publicado em 2010.

** Gary Becker http://pt.wikipedia.org/wiki/Gary_Stanley_Becker


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Se tem algo que ainda não tinha parado para pensar era a questão da “doação x venda de órgãos”. Todavia, lendo este livro e alguns artigos e opiniões sobre o caso, resolvi, mesmo que ainda de formas simples, pensar/questionar/opinar sobre o tema, que, pelo visto, é um dos maiores tabus da “sociedade moderna ocidental”.

Talvez o maior questionamento sobre a venda seja o mais frágil, que é a “ética” e a (falsa) noção de solidariedade/altruísmo humano, que existe, evidente, mas, não da forma que se idealiza.

A questão da “ética” é algo que pode ser mutável. Um exemplo simples: Você pode passar por cima da sua ética e fazer algo que julga errado para defender ou ajudar alguém por quem tem apreço. Uma mãe (“de verdade”) faria qualquer coisa (qualquer coisa mesmo) por um filho, ignorando totalmente o que é “certo”, “errado”, ética, etc.

Então, no caso da doação, nada mais justo que passar por cima da “ética” e comprar (ou vender) um órgão para salvar (ou tentar) a vida de alguém, convenhamos o direito a vida é algo (com exceções) praticamente incontestável. Ahhh sim, sinceramente não sei até onde existem impedimentos religiosos, que não necessariamente estão diretamente ligados à ética, sobre o caso, mas, enfim, o Estado é laico (pelo menos espero).

Outro argumento que possa aparecer seria o de que, caso houvesse a liberação da venda, o sistema (falando de Brasil) de saúde não seria capaz de comportar o grande número de operações. Porém, nesse caso, seria um problema de estrutura e não da ação em si, se não (possivelmente) haveria a capacidade para comportar as operações é porque o nosso sistema está “preparado” para “salvar” um número limitado de pessoas.

Outro questionamento contrário bastante usado é o de que a liberação causaria a “mutilação” e o incentivo a pessoas mais pobres a venderem seus órgãos. O que é verdade. Porém, qual seria o problema? Vejamos...De forma sincera e baseado na realidade em que vivemos, a venda de algum órgão (rim, fígado, etc.) talvez diminuísse a expectativa de vida do vendedor, no entanto, boa parte das pessoas (pobres) que poderiam vir a vender já possuem (devido a desigualdade social, principalmente) uma baixa expectativa de vida, então a ação não mudaria em nada, ou melhor, a pessoa, com o dinheiro, poderia sair da “faixa de miséria”. Realmente, talvez não seja muito “ético” a atitude, mas, é “ético” passar fome? Não ter onde morar? É evidente que as pessoas não devem se submeter à venda de um órgão para ter o que comer, porém, infelizmente, a realidade não é essa, e medidas poderiam ser tomadas paralelamente a possível liberação, para melhorar e trazer mais dignidade (o que é obrigação dos administradores) as pessoas fazendo com que não fosse necessário vender.

Isso sem contar que a venda talvez pudesse servir como um “tapa na cara da sociedade”. Talvez já não choque mais alguém roubando para arrumar o que comer, pelo contrário, em alguns casos existe a revolta contra o “ladrão”. Mas já pensou alguém deixando claro que vendeu uma córnea (perdeu a visão de um olho) para comer. Seria significativo, não?. Isso sem contar que é inegável a existência de um “mercado negro” que é prejudicial tanto para quem vende como para quem compra, pois as operações (em alguns casos) são feitas em lugares sem a estrutura necessária.

Também fala-se muito sobre o fato de a partir do momento em que órgãos sejam vendidos só os mais ricos poderão comprar e serão beneficiados nisso. Em partes, sim. Porém, vale lembrar que se existe algo universal é a doença e que nas filas dos transplantes estão ricos e pobres, então a partir do momento em que se é liberada a venda a pessoa (rica) que comprar, sairá da fila, abrindo espaço para uma mais pobre. Até porque o órgão comprando já não seria doado mesmo. E também é evidente que a doação gratuita de órgãos continuaria existindo, existem pessoas altruístas, isso é fato. E assim... porque não,poderia ser regulamentado que, em caso de pessoas mortas (com possibilidade de doação), esse órgão não poderia ser vendido, apenas doado (como já ocorre atualmente).

Ampliando um pouco, creio que além de órgãos, o sangue também poderia ser vendido ao invés de apenas doado (claro, por um preço mais módico), por que não? É claro e notório que há um déficit de doação de sangue (mesmo sendo algo simples, fácil e positivo), então por que não comprar? Ou mesmo incentivar (financeiramente) que as pessoas com o sangue mais raro (-o), seja mesmo negociado? Quantas pessoas será que já não morreram por falta de sangue, ou mesmo que não tenham morrido, ficaram dias e dias em um hospital a espera de sangue sendo que o custo gasto na sua estadia no local poderia ser investido na compra do sangue que serviria para mais de uma pessoa.

Não vejo essa realidade levantada (não imposta) como “certa” ou ideal, no entanto, é algo real e que poderia ser útil. E também é evidente que ninguém iria montar uma barraca no centro da cidade com a placa “vendo rins, fígado e até um testículo, tratar aqui mesmo”, ou iria vender qualquer coisa que poderia vir atentar contra sua vida (como um coração), porém, há meios (até simples) de o que foi falado ocorrer... e que, talvez, ajudaria a salvar vidas... O objetivo não é esse?


Abaixo alguns links que tratam sobre o tema>

http://oglobo.globo.com/mundo/relatorio-pede-pacto-da-onu-contra-venda-de-orgaos-no-mundo-3156172


http://blogs.estadao.com.br/marcos-guterman/venda-de-orgaos-para-transplante-e-a-solucao/?doing_wp_cron=1365202574.7456231117248535156250

http://eventos.uenp.edu.br/sid/publicacao/artigos/31.pdf

http://super.abril.com.br/saude/se-venda-orgaos-fosse-legalizada-447505.shtml


“Os homens quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”. Maquiavel

terça-feira, 2 de abril de 2013

O que seus olhos Veem?


Estava voltando tranquilo, no ótimo (sem ironia, é bom mesmo) ônibus municipal para minha casa após um dia cansativo de trabalho/curso, quando ao lado da minha janela para uma espécie de Micro-ônibus da Polícia com presos dentro. Um deles, ao me ver observando o veículo abre um sorriso e faz gesto de cumprimento, prontamente respondo com a mesma atitude. E aí tem início um dos fatos mais interessantes da minha desinteressante vida.

Ao me ver gentilmente cumprimentar um preso, um conhecido que estava ao meu lado demonstra um certo desconforto e me indaga sobre minha atitude:

- É amigo de bandido agora, é? – comenta com certa ironia.

- Que bandido? Apenas vi uma pessoa me cumprimentando – respondo, com uma certa surpresa da reação do conhecido.

- Como assim “uma pessoa”? É bandido, cara. E se ele fosse a pessoa que, por exemplo, tivesse matado sua mãe, você cumprimentaria? – Questiona, crente que tinha dado um “xeque-mate”.

- Ué? Se fosse, ele seria a pessoa que matou a minha mãe e não “apenas” um bandido ou pessoa, teria uma conotação totalmente diferente em minha vida. Porém, se caso ele fosse o assassino e eu não soubesse, aos meus olhos, continuaria a ser apenas uma pessoa me cumprimentando. Por exemplo, o assassino da minha mãe, seguindo a lógica que você sugeriu, poderia ser meu pai e se eu não soubesse, continuaria a tê-lo como um grande exemplo.

Achei que tinha encerrado o assunto. No entanto ele divagou, pensou um pouco e continuou a discussão.

- Beleza. Veja bem, ele é um bandido, então, pense assim. E se ele tivesse matando uma pessoa nesse momento e lhe cumprimentasse, você responderia?

- Bem. Se isso ocorre. Ele passaria de uma pessoa, ou melhor, uma pessoa dentro de um carro me cumprimentando, para uma pessoa cometendo assassinato e me cumprimentando (risos) ou seja, eu teria um maior embasamento para julgá-lo, até porque sua atitude (de matar alguém) poderia ter alguma motivação justa. Por enquanto, aos meus olhos, ele é apenas uma pessoa, dentro de um carro, que me cumprimentou.

Ele passa quase um minuto em silêncio e decide, digamos, “apelar”.

- Ahhh tá. Então e se ali fosse um carro funerário, e levanta uma pessoa do caixão e lhe cumprimenta. Você responde de boa? Tecnicamente, aos seus olhos, seria “apenas” um pessoa lhe cumprimentando. E aí?

Entre risos e a duvida se ele tava falando sério ou já tinha passado para o nível “zorra total” de discussão, resolvi responder.

- Pô, cara. Muda de panorama né? Não é uma “pessoa” me cumprimentando e sim um zumbi ou Jesus Cristo... Enfim, mesmo assim, em ambos os casos eu responderia o cumprimento, sim.

Vendo que não tinha mais o que questionar ele resolve deixar claro o seu posicionamento.

- Bem, eu não vejo-o como uma “pessoa”, e sim um bandido. Vejo um preso, ele não é uma pessoa comum para mim. Diria que coloco o fator “local onde está”, ou seja, a prisão, na frente do fator “pessoa”.

Resolvi não prolongar a discussão, também não puxei outros assuntos, fui ouvir música até o término da viagem. No entanto, não poderia deixar de ficar pensando em como aquilo me tocou. Tipo, por mais que eu ache preconceituosa/estereotipada a forma de ver as pessoas dele, era a sua “visão de mundo”, ou seja, deve haver toda uma carga social por trás disso. Então eu poderia julgá-lo? Se fizesse não estaria sendo igual a ele? ... ...Enfim... E o que eram respostas seguras, virou duvida...


Não vou postar a já tradicional frase final e sim, a música "O que seus olhos Veem?" de Facção Central>  http://letras.mus.br/faccao-central/311917/

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A minha (e apenas minha) ótima infância


Não tem quando você fica com vergonha de ser algo pelas atitudes dos seus “iguais” (tipo ser palmeirense hoje em dia). Então, eu, como bom nostálgico, me sinto exatamente assim, com muita vergonha alheia, quando vejo “semelhantes” compartilharem e realmente acreditarem que sua infância foi melhor ou que “as crianças de hoje não tem infância” (alguns exemplos)

É claro que eu adorava assistir (ansiosamente) Dragon Ball Z para ver o planeta Namek explodir (em curtos 20 episódios), é óbvio que foi mágico virar o Metal Slug no fliperama usando apenas 3 fichas, isso sem falar do Winning Eleven 2002, e é evidente que minha infância foi muito melhor sendo um “rato” no Tazo. Porém, isso foi a minha infância e “apenas” isso e assim como ela não foi pior do que a de ninguém, também não foi melhor. 

Bancando o psicólogo (se o Malafaia pode, eu também posso) só imagino duas coisas que leva a pessoa a ter esse tipo de atitude nostálgica. Pensando positivamente seria o fato dela ter uma infância tão boa que em sua visão a de todos deveria ser igual. Claro, ela erra, pois o conceito de “ser bom” difere entre pessoas, existem pessoas felizes por torcerem pelo Sport e outras (pasmem) igualmente assim por serem torcedoras do Santa Cruz. Outra hipótese, a negativa, seria que a pessoa é um adulto tão medíocre que precisa lembrar da sua infância para ter algum parâmetro de algo “positivo” em sua vida. Igualmente errado. 

Ai vem os argumentos... “ahhh mas a tecnologia está isolando as crianças, hoje elas não brincam mais na rua ou com os amigos na escola”. Curiosamente a escola e a “rua” continuam existindo, porém, também curiosamente, à tecnologia "não existia" na época de quem pensa assim. E mesmo assim, boa parte desses “anti-tecnologia” são os mesmos que faziam qualquer coisa (e quando digo qualquer coisa é qualquer coisa mesmo) para poder jogar Play1 na casa do amigo, ou que sentia inveja do garoto que tinha celular na 7° série. Isso sem falar daquele carrinho de controle remoto que fazia com que escondessem o seu de lata (nada contra, eu particularmente adorava meu camiãozinho de lata, mas, aquela Ferrari de controle tinha lá seu charme). Outra coisa interessante nas pessoas “que tiveram infância” e que hoje se preocupam com as “crianças isoladas pela tecnologia”, é que não pensavam assim à época, quando não estavam nem ai para a garota gordinha isolada, ou para o rapaz mais tímido que não tinha amigos, ou mesmo (no caso das garotas) para aquele menino, pobre, mas simpático que sempre era preterido pelos “mais descolados” (pausa para chorar)... ...Enfim, não creio que as crianças hoje sejam “isoladas pela tecnologia”, até porque não precisa estar perto para estar junto. E se muitas ainda estão isoladas, estas são as mesmas que já existiam no passado, e pior, não tinham à tecnologia. 

Outro argumento interessante é a falta de coisas boas na atualidade, claro, no “passado maravilhoso” não existia Restart, Beleza! Nem vou discutir o público que o Restart busca atingir e tals. Mas, no “passado maravilhoso” existia Twister, lembram? (a analogia não é minha, porém também não vou dar os créditos), será que melhorou muito? “ahhh mas hoje não tem mais Mamonas Assassinas”...Assim... ...Eu até gosto de Mamonas Assassinas, no entanto, se esse é o parâmetro de “melhor infância”, sinto lhe dizer: você também não teve infância; E isso sem falar que graças à “malvada” tecnologia as crianças de hoje tem a oportunidade de ouvir Mamonas Assassinas, músicas da década de 80...70...60... etc. Ou seja, uma opção maior, talvez se os que “tiveram infância” também tivessem tecnologia o gosto seria moldado de uma outra forma.

E a questão da tecnologia também vale para a televisão. As crianças de hoje podem com “facilidade” encontrar tudo sobre todos os desenhos da manchete que você (que “teve infância”) gostava. No entanto, os desenhos que fizeram a infância (creio eu, também feliz) dos seus pais, você só ouvia falar... “ahhh mas os desenhos da manchete e alguns do Sbt e TV globinho eram os melhores”, claro, eram os únicos que você assistia, porque só tinha a oportunidade (meios) de assistir desenhos nesses canais, não tinha lá grandes opções, e assim, até teletubies fica maneiro. 

Outro argumento interessante é quando falam... “ahhh mas as crianças de hoje estão mais mal educadas”... Talvez seja porque os atuais adultos (que “tiveram infância”) não saibam lá educar muito bem. E se as crianças de hoje em dia tem mais acesso a “coisas ruins”, igualmente possuem a “coisas boas”, é só uma questão de orientação... “ahhh mas hoje eu vejo meninas com 13 anos pensando em homens”. Assim... ...Se a gente for lá no passado veremos que provavelmente sua vó talvez tenha se casado aos 13, 14, 15 anos...Mas, pegando algo mais recente, tipo, não é querendo ser chato...Porém, se quando você tinha 13...14...15 anos não notou que as garotas já tinham interesse em homens (ou mesmo em mulheres, enfim), digamos que você era meio “lento(a)”. Isso sem falar que se ela(e) tem mais liberdade para falar sobre sexo, tem mais condições/conhecimento de tomar as “decisões certas”. Vale lembrar que a taxa de fecundidade entre mais jovens vem caindo no Brasil (clique aqui)

Em suma, é isso... Fazendo uma analogia (minhas analogias são ótimas), infância é igual a nossa mãe. Existem pessoas que tiveram péssimas mães ou mesmo não tiveram mães e igualmente é com a infância (e no Brasil isso ainda existe demais). Porém, se você teve uma boa mãe, ela não é melhor (ou pior) que a boa mãe de ninguém. E se sua mãe só sabe fazer macarrão numa panela de barro velha, não significa que ela seja melhor (ou pior) que a minha que faz uma ótima lasanha em um forno moderno... (apesar de que a lasanha da minha mãe é melhor mesmo... ... ...PARA MIM!).


Pode-se ter saudades dos tempos bons mas não se deve fugir ao presente".
Michel de Montaigne

sexta-feira, 8 de março de 2013

Odiar ou Orkutizar?


O grande, querido e glorioso Orkut (se gostaram desse início mandem um depoimento para mim) começou em 2004 e logo se tornou mania em boa parte do mundo, sendo uma das principais redes sociais, talvez a 1° “grande”. Interação, “paquera”, proximidade, facilidade para encontrar as pessoas, e claro, através dos fóruns, trocas de ideias, foram alguns dos pontos importantes da ferramenta.

Com o tempo o Orkut foi se tornando “chato”, é evidente que receber um depoimento ainda era legal, mas, convenhamos, ameaças de morte ou de alguma praga a sua família “se você não compartilhar”, não era lá tão bom, aquelas imagens fosforescentes que pareciam queimar sua retina de tão chamativas também causavam desconforto, e ainda, para os “Pasquale” de platão, os erros gramáticas (pq faz issu, preconceituosus linguísticos?), e por fim, mas não menos importante, o glorioso, funcional, moderno e que fazia mais sucesso nos EUA, Facebook (se gostou da descrição me cutuca lá), ajudaram a "arruinar” o pobre Orkut. Claro, com a ajuda do “maligno” pássaro azul, twitter* (já “falecido”, segundo alguns).

Então o orkut se tornou “coisa de pobre”, coisa de “orkutizador**” , bom mesmo era o facebook, era mais “Cult”, mais tranqüilo, sem as chatices já mencionadas. E ai o “feice” passa a ser a principal rede social, e com ela, mas não por sua culpa, veio o ódio. As pessoas fugiram dos “orkuteiros”, mas se depararam com algo mais cruel e doloroso, a opinião contrária. Se na rede turca, você, praticamente não se confrontava com a opinião do seu “amigo”, até porque: se eu sou “de direita” tenho várias comunidades me esperando para provar que estou certo, se sou torcedor do Sport, a mesma coisa, se odeio nordestino, idem. E se um dia algum troll aparece na “comu” para atrapalhar nossa paz, lá estava a “modessaum” para nos salvar. Enfim, tínhamos nosso “nicho” perfeito.

No face não né?

- Como assim meu “amigo” é comunista?, como assim meu amigo vota na Marina?, como assim meu “amigo” diz que meu time é ruim?”, como assim ele assite BBB?... Ahhh não pode, não posso aceitar isso na minha timeline, tenho que prová-lo o quanto é tolo e esta errado.

E ai nasce o ódio, como já foi falado nesse popular(sic) espaço (clique aqui), fugiram dos “malas” do Orkut, e encontraram os “pseudo-intelectuais” do face, ou “pior”, os mesmos “malas orkutianos” migraram para a rede de Mark Zulkenberg e sabemos que as regras sociais impedem que você não aceite a “solicitação de amizade” do seu colega de trabalho, escola, etc. E a falta de conhecimento do face, impede que você cancele a assinatura. Então, o que resta? Bradar? “acorda Brasil!!!”, mandar indireta através de música, confortar, compartilhar, xingar, menosprezar, frases do Caio Fernando de Abreu? Enfim... de alguma forma não aceitar a opinião (é sempre bom lembrar o que “é opinião”) contrária. Admitamos, nenhum meio social (família, escola, amigos próximos) dificilmente nos ensina a “confrontar”. A família (normalmente) e a escola, servem para nos “impor” sua verdade (através do que é ensinado). E os amigos próximos, são os “mesmos” que você encontrava nos fóruns do Orkut, ou seja, opção, pensam igual/parecido. No entanto o que era contrário a nós de alguma forma, normalmente evitávamos. Ou você costumava brincar com aquele primo chato que quebrava seu brinquedo? É... ... Esses primos agora estão na sua timeline.

* Sobre o twitter, não citei muito a rede, pois ela possui, em proporções menores, as mesmas funcionalidades do face.

** Amigo... “orkutizar” não existe, não culpe a ferramenta por ter amigos “toscos”, e pior, se você os tem, pense bem, pois, muitas vezes os amigos são reflexo da sua personalidade.


“Raríssimos são os que querem ouvir opinião.
Alguns poucos só querem dizer o que pensam.
E outros mais só querem ter razão”.
Augusto Branco

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tomara que tenhamos mais cornos assim...


Bem, como o “ibope” do blog anda pouco resolvi apelar com esse título sensacionalista, afinal de contas, sou jornalista e não desisto nunca . Enfim... Dia desses, vi uma pessoa da qual respeito muito escrevendo essa frase/analogia (alguns dizem até que é piada,). “Ter x atitude é igual o sujeito encontrar a mulher lhe traindo no sofá e tocar fogo no sofá”. Acho que você já ouviu isso, certo? Bem... Nunca compreendi isso. Dizem que a “lógica” seria tocar fogo na mulher.

Bem, você amigo(a) leitor (?), poderia até dizer, “ahhh... mas, é só uma frase, deixa de ser chato”. Não sou muito desses que acham que qualquer coisa é “só uma frase”, então, vamos ampliar um pouco mais a discussão sobre isso. Primeiro, poderia falar sobre o machismo incluído nela, sabemos que normalmente ela é usada no sentido do “marido traído”, então, passa aquela velha “”””lógica”””” de que o “marido traído pode se vingar, é um direito (sic) dele”, porém, claro, no caso da mulher traída, não... Até porque, “homem é tudo assim, ela tem que conviver com isso”.

Ok... ok... Você pode pensar que eu estou exagerando com o fato de ser machismo, beleza. Então vamos pensar pela “lógica” comportamental. Ou seja, quer dizer que, se uma pessoa traída chegar em casa e encontrar sua parceira(o) com outra(o) o certo seria tocar fogo no traidor (nela), ao invés do sofá, é isso? Não sei porque, mas, eu penso o contrário, para mim é tão “correto” você (traído) ao ver a cena, tocar fogo no sofá (o grande erro ai é que sofá é caro que só) mas, no normal, você estará queimando algo que não lhe trai boas lembranças, e só. Simples assim. Igual aquelas cartas de “foras” que você já queimou um dia.

Como falei antes, muitos podem achar que é só uma frase, mas, eu continuo com a minha convicção que, se mais sofás (ao invés de esposas "traidoras”) fossem queimados, as coisas seriam bem melhores.  


“Uma das coisas importantes da não violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la”. Martin L. King

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O caso Lance Armstrong e a hipocrisia da sociedade


Lance Armstrong era um dos maiores atletas do mundo, ciclista diversas vezes campeão da “Volta da França” (evento mais importante da modalidade), tendo sua importância para o esporte aumentada após ele superar um câncer (no testículo) e dois tumores (no pulmão e cérebro) e voltar a competir (e ser campeão). Além disso, ele criou uma fundação de combate ao câncer e participou de diversas campanhas.

No entanto, alguns dias atrás o atleta assumiu ter usado dopping durante boa parte de sua carreira. E ai é ai que a hipocrisia aparece... Longe de mim defender Lance como atleta, é justo ele perder todo o respeito, premiações, dinheiro, etc. Tem uma carreira totalmente manchada (a ponto de uma biblioteca na Austrália transformar suabiografia em ficção).

Como disse, toda punição ao atleta é justa. Porém, e o homem Lance Armstrong? Ué, ele não venceu na “vida”? E não é isso que tanto propagam (“não desistir nunca”)... Por um (grave) erro na parte esportiva ele deixa de ser um exemplo de vida? Até onde saiba, ele continua sendo uma pessoa que superou um câncer, dois tumores e voltou a competir. Ou seja, deixando a parte do esportista (da qual ele já foi punido) de lado, se ele fosse uma “pessoa comum”, que venceu um câncer, dois tumores e voltou a praticar esporte, sua história de vida não seria um exemplo? (alguns atores ai são a prova disso).

O mais bizarro de toda essa história foi o técnico da seleção brasileira de vôlei, Bernardinho, mandar seu filho queimar (sintomático, não), todos os livros de Lance Armstrong: "O meu filho me perguntou: "Pai, o que eu faço com os livros do Lance que você me deu?" Eu disse: "Queima, joga fora, esquece, não servem para inspirar ninguém". Como o livro que conta a história de uma pessoa que superou dois tumores, câncer (entre outras coisas) e voltou a competir não serve de inspiração?. Isso mostra que muitas vezes o importante não é a vida em si, de nada adianta você “vencer a morte”, se após isso, não se tornar uma “pessoa perfeita”, é como se cobrança fosse maior... “ahhh ele poderia ter morrido, deveria ser uma pessoa melhor”...Repito, não estou defendendo o “esportista” Lance, mas, continuo respeitando um homem que soube superar um momento difícil...

“Se você se preocupasse em cair da bicicleta, você nunca a controlaria”. Lance Armostrong

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Deitado em berço esplêndido


O título deste texto seria: “o perigoso coitadismo e comodismo da esquerda”. Mas, como é sabido, sou avesso ao “ibope”, e principalmente os indesejados, então, resolvi mudar o título para algo mais light, mais eufêmico. (E ainda dizem que sou jornalista... ahahahah).

Porém, a intenção da postagem segue a do “título polêmico”. E é isso... A esquerda (esquerda não necessariamente significa ser comunista, ok! Não vamos maltratar a história dessa forma), voltando...A esquerda no Brasil sempre esteve em posição de confronto, de “alerta”, sempre foi “inimiga do estado”, censurada, difamada, perseguida, etc. Lutou contra repúblicas ditatórias, democracias ditatórias (sim, existe!) e claro, a ditadura militar. Com isso, ela teve que, através de muita luta, consegui de alguma forma seu espaço, na arte, esporte, igreja, sindicatos, etc. E isso fez com que os esquerdistas ganhassem a fama de “mais inteligentes” e principalmente de mais persistentes. Tanto que nos anos 1960, 70 , jornalistas de esquerda predominavam nas redações. Um empresário reconhecidamente de direita, como Roberto Marinho, não deixava os militares prenderem “seus” comunistas para não desfalcar seu time. “Cuide dos seus comunistas que eu cuido dos meus”, disse certa vez a um general de plantão no poder. Nessa leva surgiram Paulo Freire, Milton Santos, Chico Buarque, Sócrates (jogador), Leonardo Boff, Frei Betto, Marilena Chauí, Vladimir Safalde, Sérgio de Souza, etc. (você pode discordar de todos eles, mas, negar a sua “capacidade intelectual” é um erro). Porém, de um tempo para cá, principalmente após o governo “de esquerda” do PT, e da “revolução da internet” a esquerda (tanto os “intelectuais”, de rua ou mesmo os de piscina) passaram a adotar o comodismo, e pior, um “coitadismo” que de longe parece o que foi o   “movimento”.

O comodismo está nas atitudes, por exemplo, os “de rua” se contentam em realizar um protesto aqui, ou ali e pronto, mostrou sua cara, suas posições, porém (como normalmente ocorre) não colheu frutos, a esquerda “de rua” (nem todos, claro) se tornou a esquerda de holofotes (talvez com interesse político futuro), ou seja, onde tem uma câmera, uma capa de jornal, ela estará, independente do resultado final (mesmo que não consiga alcançar o objetivo). A “esquerda intelectual” se autointitulou assim e se tornou meio hipster, mantém o mesmo pensamento de que “se é de esquerda é mais inteligente”, ataca tudo (ou a maioria) que é de “gosto popular” ou da “industria cultural”, enfim, são aqueles que até concordam com o “povo”, porém, não está ao lado dele ou sabe seus reais problemas, muita teoria, pouca prática. E por fim os de internet, piscina ou “engajados”, esses, bem, já são acomodados por natureza, mas, o problema está que, pela cada vez maior “massificação” (apesar de ainda está longe de representar o todo) da internet, eles passaram a aparecer mais, e seu discurso é fraco, muita paixão, pouca análise/leitura, estão na internet para “moralizar”, compartilham uma coisa aqui, se tornam Kaiowa (mesmo sem saber da existência dessa tribo há dois dias antes), talvez não tenha lido dois livros de Marx, mas, se acham comunistas (ou algo parecido) com sua retórica simples e muitas vezes falha, é a mistura do que há de negativo nos dois perfis acima. O comodismo também existe quando ela simplesmente se nega a rebater/debater a direita, conhecer de fato seu pensamento e suas divisões, por exemplo, “é contra o socialismo na economia, é reacionário!”, “é contra as cotas, é preconceituoso!”, prática essa (de criticar o que não conhece) bem comum na direita.

Além do comodismo, existe o “coitadismo” de que “somos censurados, sempre” (nem tudo que é de esquerda é censurado), “somos perseguidos”, “estamos na ditadura militar?”, entre outras coisas. Não atualizou seu discurso com a época... Aquela coisa de quem passou pela ditadura e, pelo visto, sente falta, ou de quem nunca viveu, porém, da mesma forma, sente falta. E na boa, não vivemos a mesma época da ditadura, os tempos mudaram, como diria aquele filme lá “o inimigo é outro”, então, é evidente que o discurso também deve seguir outra linha. Como a esquerda, através de Paulo Henrique Amorim, por exemplo, pode dizer que é “censurada”, se ela (no caso de PHA) está todo domingo em horário nobre? Emir Sader (conhecido esquerdista) comenta diariamente (com liberdade) na TV Brasil, algo que não ocorreria na ditadura militar, isso sem contar as centenas de blogs, vlogs, canal no youtube ou coluna de jornais. A Folha de SP é de direita (e é mesmo) mas Vladimir Safalde tem uma coluna (creio eu com liberdade), lá... Então, apesar de ainda ser minoria, não há essa “total censura”, claro, a regulamentação da nossa mídia seria positiva para isso, para uma maior igualdade (espero eu) de opiniões. (nem tudoé opinião, só para constar).

Não estou generalizando, apenas comentando sobre um perfil de pessoas que existem. E para isso, abaixo colocarei os Dez conselhos para os militantes de esquerda (de Frei Betto) fazendo um paralelo com o objetivo do texto.


Dez conselhos para os militantes de esquerda:

1. Mantenha viva a indignação.
Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.
Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.

Comentário: o “cuidado”, em minha opinião fala sobre os “petistas de esquerda”, cômodos com alguns avanços sociais do PT.

2. A cabeça pensa onde os pés pisam.

Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.

Comentário: esses são os famosos “comunistas de piscina” e atualmente, os que falei de “holofotes”, ou seja, estaram onde a mídia estiver, não necessariamente onde o povo estiver.


3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.

O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.

O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

Comentário: Esses seguem a mesma linha dos primeiros.


4. Seja crítico sem perder a autocrítica.

Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco no olho do outro, mas não a trave no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

Comentário: São normalmente os que falam: “eu já fui de esquerda, mas, mudei”, e normalmente se tornam crítico vorazes da ideologia. E também, os “com saudade da ditadura”, que vêem conspiração em tudo.


5. Saiba a diferença entre militante e "militonto".

"Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

Comentário: O “militonto” é exatamente o primeiro esquerdista citado por mim, os de “holofotes”. Tem um discurso frágil, e muitas vezes (quando jovens) servem apenas como “massa de manobra” para movimentos estudantis.


6.
 Seja rigoroso na ética da militância.

A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.
Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.

O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

Comentário: É também um militante de “holofotes” com intuito político.

7. Alimente-se na tradição da esquerda.

É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, “voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.

Comentário: Esse já é o “engajado”, talvez, não por maldade, veja apenas o lado romântico e “bonitinho” da ideologia.


8.
 Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.

Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.
Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

Comentário: Esses já são os “hipsters de esquerda”, talvez tenham boas intenções, mas, “não se misturam com a gentalha”. Talvez tenham muito Marx na cabeça e pouco Paulo Freire.

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.

São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.
Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.

A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

Comentário: É uma mistura do 1° com o 8°


10.
 Faça da oração um antídoto contra a alienação.

Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.
Comentário: “Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta”. Nem precisa comentar.


Bem essa postagem, é, além de tudo, uma opinião e também uma autocrítica. De forma alguma trago comparações. Deixando claro que, o fato de estar criticando uma forma de como está se aplicando o pensamento, não significa que você esteja criticando todo pensamento em si. Ok!


"Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre".

Paulo Freire.