sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chaves e a melancolia do nosso dia a dia


Muitas coisas marcam o seriado Chaves. As frases clássicas (acho que nem preciso repeti-las), as piadas que, mesmo “velhas”, são sempre válidas, as lições de moral (“a mentira nunca é plena, mata a alma e a envenena”), etc...etc... Enfim, não é à toa que esse programa já está há 30 anos (e provavelmente ficará por mais 30) na tv brasileira.

Porém, tirando tudo ligado ao humor, algo sempre me chamou atenção sobre o seriado e talvez seja melhor definido na frase que li hoje é: “Existem algumas referências da infância que nos preparam pra vida: era o caso da melancolia embutida em Chaves". E é bem isso. Não é só fazer sorrir, Chaves, pelo menos para este que vos escreve, também conseguia, como ninguém, nos fazer tristes. Mas não a ponto de necessariamente chorar (apesar que o episódio em que ele é chamado de ladrão testou minha fé), e sim no sentido melancólico/reflexivo. Diria até, sendo presunçoso, no sentido de nos confortar e confrontar sobre a irrelevância/importância da vida.

Se pensarmos direito Chaves representava (ou representa) nada mais do que a repetição diária da nossa vida. E, talvez por isso, nos prende tanto. “Sempre as mesmas piadas”, “sempre o mesmo cenário”, “sempre a mesma roupa”, “sempre as mesmas pessoas”. A escola, o professor, os amigos, o trabalho (que falarei um pouco mais adiante). Enfim, tudo a “mesma coisa”. Mas, o que seria isso senão um pouco (pelo menos para boa parte das pessoas) de nossas vidas? uma série de “episódios repetidos”. 

Temos amores correspondidos (que nos convidam para tomar uma xicará de café), amores não correspondidos (que nos chamam de bruxa), aquela pessoa que sempre terá um brinquedo melhor que o nosso, o tiozinho pilantra, mas, gente boa, que nos dá bons conselhos, brigas, cascudos, medos, festa da vizinhança e o parque diversão de vez em quando... Enfim... como disse, cenários repetidos, que praticamente todo mundo já passou e, em alguns casos, são universais. Ou seja, não apenas o “rapaz pobre do subúrbio” sofre com isso.

A melancolia em Chaves talvez seja melhor representada pelo seu “melhor episódio” que, para muitos (e para mim), é a viagem a Acapulco. Por que? Simplesmente porque quebra a rotina, é “o diferente”. Outro cenário, outras roupas, outras pessoas, outras situações, outras comidas. E, convenhamos, quem de nós não tem aquela viagem especial, aquele momento que, talvez, represente o dia mais divertido em nossas vidas. Enfim, Chaves, desde cedo, nos apresenta isso.

Assim como, para muitos (e para mim), o pior episódio é o do restaurante. Por que? É aquilo, convenhamos, o trabalho não nos traz as melhores lembranças. É difícil encontrar uma pessoa que diz: “olha, o dia mais feliz da minha vida foi no trabalho”. Você pode ser feliz trabalhando, claro, assim como, apesar de “ruim”, conseguimos dar risada com aquele episódio. Mas, marcante... marcante, não é!. E isso sem contar que o trabalho nos priva de pessoas importantes. Em muitos casos (e me incluo nisso) você tem bons amigos, para alguns, até familiares, esposa/marido trabalhando com você. Porém, na maioria das vezes, ao ir trabalhar deixamos algo em casa (ou longe de nós). E em Chaves não foi diferente, por “deixar em casa” figuras especiais como Quico e Seu Madruga, naquele episódio. 

Enfim, Chaves nos faz rir? sim, evidente. Muito!. Mas, as vezes, mesmo que sem querer querendo, eles nos faz querer nos esconder no barril, para não nos verem chorando dos cascudos da vida. 



Ps. Essa é a centésima postagem do blog. Perfeito! Acho que não poderia ser melhor ao que se propõe esse (muito) pequeno espaço. Valeu, Bolanõs.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A supervalorização das Jornadas de Junho


Apesar da importância histórica das Jornadas Junho (ou como diriam outros, Xornadas de Xunho) esse movimento criou, ou aumentou, na cabeça de alguns, a sua torpe visão holística da sociedade (já comentada aqui). É impressionante como para eles o POVO foi as ruas em 2013, porém, o mesmo POVO votou no PT em 2014. Não há divisões, distinções, nem paradoxos. O substantivo masculino POVO representa apenas uma parcela da população, que pensa (ou deveria) igual, que vivem a mesma realidade e compartilham (ou deveriam) as mesmas opiniões. Será?... Evidentemente que não.

Dando um exemplo com números. No dia de maior mobilização as jornadas juntaram mais de 1 milhão de pessoas que foram as ruas protestar contra “tudo que está aí”. Se contarmos todos os dias, poderia arredondar para uns 2 milhões, ou pouco mais, enfim... Sabe o que isso significa? Menos da metade das pessoas que votaram nulo/branco tanto no primeiro como no segundo turno, só no segundo foram mais de 7 milhões de pessoas que não votaram em nenhum dos dois candidatos. Então, numericamente falando, poderíamos muito bem dizer que as pessoas que foram as ruas “querendo mudanças” preferiram não votar, mantendo sua “coerência” (e ainda sobrariam várias). Mas, não só isso, vale lembrar que alguns protestaram contra PEC37, outros pelo Passe-Livre também tiveram os que foram contra “Cura Gay”, etc. Em tese, isso não necessariamente significa que estavam lá “querendo mudar o comando do país”.

Também é importante destacar que o não sentimento de mudança não é só relativo ao PT (presidência). “Aiiinn mas o povo vai as ruas mas vota no PT, depois”, podem dizer alguns. Tirando o que já comentei acima (e não vou desenhar de novo). Ué? O Estado que deu a maior vitória ao PSDB, São Paulo, é o mesmo que é governado por mais de 20 anos pelo.... ...PSDB! Então, seguindo a lógica acima, eu poderia dizer, “Os Paulistas vão as ruas pedindo mudanças, mas, continuam votando no PSDB”.

Mas, voltando a visão binária e holística de mundo. “Ahhh mas eu fui as ruas para mudar o governo”. Bem, primeiro que mudar governo “nas ruas” ou com golpe ou revolução, e acho que as “xornadas” do ano passado passaram bem longe disso. E segundo, se você realmente acha que o processo democrático se resume a uma eleição, bem, em minha humilde opinião, você tem que melhorar muito seu conceito de democracia e representatividade.

Em suma, as “xornadas” e sua supervalorização representaram exatamente o que se “entendeu” delas. Um monte de vozes dissonantes pedindo várias coisas. No entanto, algumas dessas vozes, talvez criadas a iogurte, achavam que todos lá estavam para realizar seus desejos, para lutar pelas suas convicções, e que, ao ver seus anseios derrotados, choram, como grandes crianças mimadas que são. A eles, posso dizer apenas: “Sem violência!, sem violência!!”...

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A timeline é o seu reflexo



Mas, eu não ganho dinheiro repetindo o texto dos outros, né?. Na verdade, não ganho dinheiro nem escrevendo os meus, Enfim...

Vamos lá...Sabe um negócio muito irritante na internet/redes sociais? são comentários do tipo: “Aí, o facebook tá chato”, “redes sociais são uma merda”, “só tem gente chata”, etc. Como diz o texto acima:

"Dizer que 'o face tá uma merda' é extrapolar para todo o universo do Facebook uma característica inerente apenas ao seu perfil. Afinal de contas, o conteúdo exibido em sua timeline é oriundo das páginas que você curtiu e das pessoas que você adicionou. Se o Facebook está chato, é porque você só conhece gente chata e porque você mesmo é um chato".

É isso. Não tem para onde correr. E não falo “cagando regra” sobre o que é bom ou ruim. Por exemplo, se você se considera de “esquerda”, mas, reclama dos conteúdos “reaças” na sua timeline, sinceramente, acho que o "problema" está em você. Até porque, é totalmente possível, sendo de esquerda (pegando o exemplo que citei) ter amigos de direita que não necessariamente reproduzem (sem questionar) tudo que leem na Veja. Assim como, você sendo de direita, é bem possível ter amigos de esquerda que não acham esse texto do PCO legal. 

É evidente que isso não significa que você deve ter apenas “amigos” que correspondem a todas suas características, que tenham seus mesmos gostos. Além de difícil, seria uma tremenda idiotice, como já li por aí. “A qualidade da salada de frutas está na mistura”. Ok. No entanto, não é por isso que você colocará frutas podres na sua salada.

Ou então, ainda seguindo a analogia acima, não é porque a mistura é boa que você irá fazer uma salada para 100 e tentar comer só, se fizer isso, em um dado momento ela irá estragar. Traduzindo: Não é porque é bom ter uma “mistura” na sua timeline que você, em tese, precisa sair adicionando tudo que é pessoa, ter mais de 2000 amigos quando não conhece nem 20%. Se faz isso, nada contra, é um direito seu, mas, acabará arcando com as consequências.

Muitos podem falar. “Ahhh mas eu não posso deixar de aceitar como amiga/o meu tio mala, minha chefe ou o rapaz que trabalha comigo, pega mal”. Ok. Até entendo essa “obrigação” de algumas relações sociais. No entanto, tanto no face, como no twitter e em outras redes, existe opções para você continuar seguindo (ou sendo amigo) sem obrigatoriamente ler a bobagem que escrevem. Se você continua lendo, repito, o problema está em você.

Então, quando o conteúdo dos "semelhantes" desagradam muito, sempre aparecem aquelas revoltas. “Vou sair. Não agüento mais ler tanta bobagem, etc". Sério? Sério mesmo que você vai deixar o facebook para evitar ler bobagem? Tipo, você irá viver numa bolha, certo? Por que, repetindo o texto que citei acima (leiam!):

"As pessoas são sem noção, são grossas, mal-educadas, ou são gentis, reservadas e tímidas. Nas redes sociais isso não muda. Algumas de fato ficam mais soltas, outras na verdade acabam ficando mais introspectivas, mas no fundo são pessoas por trás do avatar e isso não vai mudar, a não ser que se crie uma rede social onde só entram bots. Uma rede social como o Facebook não cria um mundo novo. As redes sociais apenas digitalizaram os comportamentos, mas na essência eles ainda são os mesmos".


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como pode? Ninguém na minha timeline votava nela


É redundante falar sobre a influência, crescimento e importância da internet (e redes sociais) nas relações humanas. Já falei sobre esse tema em algumas oportunidades (aqui, aqui e aqui). Por isso, não vejo necessidade de entrar nesse mérito de forma mais ampla.

No entanto, as eleições de 2014 que, seguindo o panorama natural da evolução digital, serão a com maior influência nas redes, é um assunto que meu causa, digamos, preocupação.

Falo isso porque no último dia 17 saiu uma pesquisa que aponta a vitória de Dilma no 1° turno. E, como de praxe, foi comum ver pelas redes comentários do tipo:

“Isso é manipulado, nunca vi pesquisas... de ontem saem esses eleitores?” 

“Só vejo compartilhamento e críticas ao governo na internet. Aí agora aparece uma pesquisa falando que ela está em primeiro. Absurdo” 

“Falta de coerência: O povo vaia, protesta e odeia Dilma Rousseff, mas ela continua a 1ª colocada para à presidência”.   


E o principal: “Não vejo ninguém na minha timeline falando que vai votar nela, como ela pode estar em primeiro”.

É interessante, e preocupante, notar essa visão holística (e muito limitada) da dimensão das redes sociais. É algo que vai muito além dos guetos (ver aqui) ou mesmo da criação dos passivos/responsáveis (que comentei aqui). É a negação (ou desconhecimento total) de que chamam de “massa silenciosa”, o que, ampliando, não passa de um desconhecimento do Brasil, como nação.

Vejamos alguns dados:

De acordo com a pesquisa ibope o número de usuários da internet passou de metade da população brasileira pela primeira na vez. Em 2013, os internautas somaram exatos 51% dos cidadãos com mais de 10 anos de idade, ou 85,9 milhões de pessoas. Dessas, 94% possuem contas no facebook (principal rede social). Porém, desses 51% com mais de 10 anos, aproximadamente 10% tem entre 10 e 16, ou seja, não votam. Enfim, como conta não é meu forte, se for “arredondar”, digamos que temos 65 milhões de usuários da internet que também são votantes...

No entanto, o Brasil possuí mais de 138 milhões de eleitores, então, a média de eleitores que possuem acesso à internet não chega a 50% dos brasileiros (isso sem levar em consideração que ter acesso à internet ou mesmo redes sociais não significa que usam com freqüência). Ou seja, é evidente que apesar da sua inegável importância, não serão as redes sociais que definem ou mesmo servem como panorama da eleição. Talvez no futuro isso possa mudar, porém, atualmente, ainda será a “massa silenciosa” que definirá o pleito.

E aí fico imaginando, caso aconteça uma vitória de Dilma, os questionamentos que coloquei acima: “Como pode? Na minha timeline ninguém votava nela”. Talvez esse exemplo seja apenas mais um que mostra o acesso à internet muitas vezes traz uma certa “fuga da realidade”. Ou serve como parâmetro para entendermos a dificuldade (de algumas pessoas) em entenderam a dimensão do nosso país, ou das suas vidas.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A Copa & eu


Um inglês, um japonês, dois gregos e alguns costarriquenhos e brasileiros entram no banheiro. O que está acontecendo? ...Não! Não é uma suruba ou a introdução de uma piada sem graça, é Copa do Mundo!.  A cena descrita é apenas uma das várias que me marcou em um dos momentos mais legais nos meus 23 anos de história, que foi assistir a um jogo de Copa do Mundo no Estádio (no caso, Arena Pernambuco).

Desde o momento em que sai de casa, às 14h30, até às 20h em que cheguei. Tinha apenas um objetivo em mente: Curti o máximo possível da experiência. Então, por isso, não havia melhor opção de interação do que o metrô. E, como esperado, foi bem legal. Desde a ida, no vagão, ouvindo as histórias de um grego muito louco (figuraça) até o momento de pegar o ônibus (integração) até o Estádio e começar a sentir o clima de um jogo de verdade, ou seja, tome batuque no busão... e “vamos!!!...vamos!!! Ticos!”... 

No campo você começa a sentir a dimensão da grandeza do evento quando vê duas pessoas de CINGAPURA para acompanhar o jogo. É uma espécie de Torre de Babel horizontal com um gramado no meio. Sobre a organização, pouco o que se criticar (talvez a lama devido a chuva ou a falta de troco na barraca de cerveja). E também, como crítica, fica aquele “gosto” de que em jogos nacionais pudéssemos ter algo parecido (em relação a estrutura). 

Mas. Enfim. Vamos ao jogo. Ou melhor, o jogo não, que a partida (Costa Rica x Grécia) só terá graça lá pelo final...Então, vamos ao clima dentro do Estádio. Que, no primeiro tempo, tirando uma ou outra “ola” foi bem chato (no início), admito. Acreditem o “euuuu sou brasileiro... com muito orgulhoooo... com muito amooorrr”... consegue ser mais chato pessoalmente. 

Para o segundo tempo a pedida foi emoção, por isso, em um ato de “rebeldia” (não façam isso em casa, crianças), sai do meu local (setor 3 na parte superior do estádio) e fui, “no jeitinho brasileiro”, para parte inferior (o setor mais caro) assistir o jogo mais de perto e acompanhar dentro da torcida, da Costa Rica, claro. E esse momento posso dividir em 3 atos. 

1° A festa – Do Gol da Costa Rica. Sensacional todos os momentos. Que mostra que, dentre várias coisas universais a comemoração (e emoção) de um gol é uma das mais forte (se Kant tivesse ido por esse caminho talvez tivesse mais sorte). Isso sem contar que, ao estar no campo de jogo algumas coisas ficam mais claras, como a desolação do goleiro, a irritação (e briga) dos (defensores) gregos ou a oração reservada do rapaz no banco da Costa Rica. 

2° A tensão – Com o gol da Grécia. E não poderia ser de forma mais tensa. Aos 46 do segundo tempo. No mesmo momento olhei para o lado e vi os Costarriquenhos meio que como pensassem: “Estamos sonhando? Como assim. Foi tudo um sonho. Acabou?”. Mesmo o time não tendo perdido, senti que a confiança (até aquele momento inabalada) havia dado um tempo. Até que, lá pela prorrogação começaram a puxar um “si, se puede!... si, se puede!... No gol da Grécia também vale uma menção aos brasileiros que, em sua maioria, torceram para Costa Rica, mas, comemoraram (efusivamente) o gol grego. Não comemorei, no entanto entendi perfeitamente, neutro aos times, nós queríamos mais uns 30 minutos de Copa em nossa terra... 

3° - O desfecho e o heroi – ... E como valeu a pena, não os 30 minutos de um futebol mais ou menos na prorrogação, mas os pênaltis. Ahhh os pênaltis... Em dado momento, mesmo neutro, me peguei tremendo e, claro, tenso, junto aos meus novos amigos costarriquenhos. Difícil definir esse sentimento. Mas, tinha confiança que o Navas pegaria pelo menos um. E dito e feito!... ele pegou, à Costa Rica fez e conseguiu fazer história... lágrimas se misturavam com risos e cerveja jogada pra cima... A minha “mais nova pátria” (pelo menos por 120 minutos) havia feito história. Mas, admito, que após todo o ocorrido bate aquele desejo de “poooxa. Os dois poderiam vencer e todo mundo saia fez do estádio”. Ledo engano. Ao sair, gregos, alemães, ingleses, costarriquenhos, brasileiros, etc... festejavam, zoavam, riam, talvez sabendo que, o mais importante ali não era apenas o resultado e sim a história sendo. Teve Copa!... vai deixar saudades. Mas, valeu cada minuto... ...

Então. SI, SE PUEDE!!!  

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A militância virtual e a realidade paralela


Se tem algo que nunca entendi bem (ou finjo não entender) é uma certa “perseguição” de determinados meios (pessoas e setores da mídia) ao que chamam de “militância virtual do PT”. É um ponto que, sinceramente, fico na duvida que seja ignorância ou má fé (ou os dois).

Primeiro ponto é que, evidentemente, não é uma prática só do PT, o partido, talvez, tenha avançado mais inclusive realizando eventos. Segundo ponto, e o mais importante, qual é o problema básico (ética e politicamente) de uma militância virtual? Qual a diferença de uma militante virtual para um “real”? (tirando o maior alcance e efetividade do virtual, em alguns casos). Apesar de não ser algo criado aqui, a utilização desse meio é algo necessário para todos os partidos, não é apenas um “plus” nas campanhas e sim uma obrigação.

Outra questão importante sobre à militância já falei nesse texto. Vejo muitas vezes argumentos (feito por militantes) sobre determinados pontos (do governo) sendo respondidos com um: “Ahhh você é pago pelo governo para falar isso”. Beleza, realmente muitos podem ser pagos, porém, isso serve como contra-argumento? E o que tem a ver com o assunto? A partir do momento em que se “trabalha” vendendo um “produto” (e a política não deixa de ser isso), você é pago para falar daquilo, porém, não significa que seu produto esteja com defeito ou seja ruim. Usar esse tipo de argumento é praticamente o mesmo de você ir numa loja e dizer a um determinado vendedor: “Não vou comprar essa TV. Você é pago para me dizer suas qualidades”. Não faz muito sentido. Cabe ao "consumidor" saber diferenciar o que é verdade ou que é um argumento válido e o que é manipulação ou ação agressiva de militantes ou "não militantes" (que o diga o filho do Lula).

E por falar em pagamentos. Tá ai outro fenômeno difícil de entender: “O PT paga seus militantes com dinheiro público”. É estranho ouvir isso, pois,  o PT é o segundo partido com mais filiados, muitos deles bem fiéis a causa (um exemplo foi o pagamento das multas de Genoino, José Dirceu e Delubio), isso sem contar as doações (muitas deles de empreiteiras) e o dinheiro, aí sim público, do fundo partidário (algo que todos partidos recebem). Nem entro no mérito se o partido rouba ou não, mas, é meio estranho imaginar que ele “roubaria” dos cofres públicos alguns “trocados” (falo em trocados, fazendo um paralelo entre verba da União e o que é gasto com militância) para gastar com militantes. É mais ou menos aquele lance de “ser inocente” ou não “saber fazer o jogo”, o que, sinceramente, não acredito que seja uma falha do Partido dos Trabalhadores (para o bem ou para o mal é um partido muito bem articulado).

E o mesmo vale para os outros partidos, o PMDB tem o maior número de filiados no país. Será que ele precisa “roubar” dos cofres públicos para gastar com militância? O PSDB governa há mais de 20 anos o Estado mais rico do Brasil. Porém, acho inimaginável que o dinheiro arrecadado nesses anos é desviado para “gastar com militância”. Não que os partidos não “utilizem a máquina”, no entanto, creio que de forma mais inteligente.

Sobre o jornalismo pago – Já havia comentado algo aqui:

E isso não vale apenas para os "comuns". Outro fator importante nesse meio todo é o partidarismo da imprensa. Dizer que a imparcialidade é uma lenda, para quem estuda comunicação, é quase uma unanimidade, todavia, isso não significa que se determinado grupo de comunicação, ou mesmo pessoa, que assume ser partidário, será automaticamente um “vendido” e qualquer tipo de informação passada por esse meio (ou pessoa) não deverá ser levada em consideração. Existem diversos jornalistas que não são partidários, porém, são extremamente mercenários (olá, tudo bem?), e outros que mesmo assumindo “ser de um lado”, conseguem fazer seu trabalho da forma mais coerente possível. E aí cabe curiosamente a muitos que criticam a “cegueira” de quem é partidário, saber minimamente refletir, sem qualquer tipo de pré-conceito, sobre o que é uma informação coerente (esqueça a imparcialidade) e uma totalmente manipulada (adoro essa palavra, nunca sai de moda).

A imparcialidade é uma lenda. Ok. Isso é fato. Mas, a partir do momento em sua ofício é ser jornalista, o seu “produto”, diferente do militante, é a informação que deve ser passada da forma menos “maquiada” possível (ta, eu sei... eu sei...). A linha editorial sempre existirá. Por exemplo, a partir do momento em que o PT governa o país e consequentemente tem maior influência sobre nossa TV pública (TV Brasil) é evidente que a “linha editorial” da emissora será mais “pró” o Partido (apesar de, particularmente, eu achar grosseiro o Emir Sader como comentarista político). Todavia, apesar da sua linha editorial, a tv (ou seu setor de jornalismo) não pode (ou deveria) atuar de militante e unilateral. Jornalista militante é assessor de imprensa com grife. Algo diferente. Que deveria ter um peso diferente.


Ps. Essa postagem não foi paga com dinheiro público desviado pelo PT. No entanto, qualquer coisa, estamos aí, né? Entrem em contato que eu passo o número da conta.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Em busca da torcida perfeita


Não há nada como assistir um jogo no estádio de futebol e se for clássico ou final, melhor ainda. Isso é inegável. O clima do jogo, a cadeia de emoções que podem variar a cada segundo de raiva para alegria, para decepção e depois alegria de novo. Enfim, inigualável. 

Muitos podem falar “ahh mas é violento”, sim, assim como a sociedade em geral. “Ahhh mas não tem estrutura”, já falei sobre isso aqui, mas mesmo com, em alguns casos, a falta de estrutura, a emoção geral de ir para uma partida (salve exceções) compensa. Já escrevi sobre torcidas e futebol algumas vezes (aqui, aqui e aqui). Porém, abordei mais precisamente o assunto “torcidas” no texto, “ Torcida no Brasil não serve para nada” de dois anos atrás. E é meio baseado nele que falarei hoje, porém  fazendo uma mea culpa. 

O tempo passa, a gente evolui (ou não), e sinceramente discordo de muito do escrevi tempos atrás. Torcida no Brasil serve sim e não há como “comparar torcidas”. Sabe-se lá porque se criou uma “áurea” sobre a torcida argentina, alemã ou inglesa. Deve ser pelo conceito, do qual compartilhava, de que “eles sim sabem torcer”, motivo: apóia o jogo todo, canta, etc. Ok. Acho lindo, um bom exemplo. Todavia, não significa que ela seja “melhor” que a brasileira (ou qualquer outra). Dizer isso é maximizar aquele pessoal que gosta de ser “caga-regra” de como torcer. Não tem aquele cara chato no estádio que fica falando: “Se for pra ficar sentado vão para casa. Tá aqui para torcer, etc. etc.”, ou seja, que acha que o torcedor deve agir igual a ele, pronto, é bem isso.

Você dizer que “há um jeito certo de torcer”, é mais ou menos dizer que “há um jeito certo de expressar sua emoção”, e pior, de certo modo ainda interfere em direitos básicos de comportamento, até porque, se eu estou pagando para ir a um jogo de futebol, no campo, não atacando ninguém (fazendo algo “fora da lei”), posso fazer o que bem entender, gritar, chorar, dormir, levar um porco (ta, aí não sei). O importante, óbvio, é o estádio estar cheio (e aí sim a gente pode discutir o papel da torcida brasileira na média de públicos).

Até porque poderíamos ver o lado "ruim" desse apoio incondicional, exemplo: Jogo entre Middlesbrough (Boro) x Manchester City em 2008, 7 (SETE!!!) a 0 para o Boro e, aos (mais ou menos) 35 do segundo tempo, o City faz um gol, o que a torcida (sim, ainda tinha torcedor do City em campo), faz? COMEMORA! (ver a partir de 1min e 40)... Sério que isso é um “grande exemplo de apoio?”. Sinceramente, na minha terra, seria outra coisa. E esse é apenas um exemplo de vários outros casos, ontem mesmo, Bayern sendo humilhado pelo Real Madrid em casa e a torcida... ...Comemora, canta!... Por quem? Por que? Sinal de “amor incondicional” ou seja, "estamos lá nos bons e nos maus momentos", pode ser. Mas, o que de fato isso pode interferir na grandeza do time ou no resultado da partida. E além disso, desde quando “amor” significa apoiar incondicionalmente? Amor também pode aparecer em atitudes como chorar, se calar ou até mesmo reclamar, xingar... Claro, chegar a pontos como agressão (algo que não ocorre só no Brasil), está completamente fora de qualquer atitude “aceitável” de um torcedor.

Enfim, seja sentado, cantando ou como os japoneses, fazendo "ohhhhh..." para qualquer passe certo, o importante é, como diria aquele velho clichê, "a festa das torcidas no estádio", porém, cada um ao seu modo, pois, parodiando o Conde do Brega: “A liberdade ta aí... ta aí...".


"A torcida paga ingresso para ver o time vencer. Quem quiser ver espetáculo que vá ao Teatro Municipal." Muricy Ramalho.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Humano, demasiado humano


Esses dias reli uma das entrevistas mais interessantes que já vi de uma pessoa no meio do futebol, realizada pelo promissor técnico Fernando Diniz, ex-jogador do Flamengo, Santos, Fluminense e atual treinador do Grêmio Audax. Nela, entre outras coisas, se destaca:

"Eu sofria muito quando era jogador. Não fui um cara que teve felicidade de ser jogador. Era uma coisa que era pra eu adorar, mas esse ambiente profissional de alto nível me trazia muita angústia e sofrimento”.

“O ambiente do futebol profissional trata os jogadores como máquina e ignora seus sentimentos. E não colabora para que eles se desenvolvam politicamente e culturalmente. Ignora esse lado e o que eles pensam”.

"Querem que você seja uma máquina. Ninguém sabe o que você acha, porque acha, porque você sofre, e o que pode ser feito para melhorar sua situação. O futebol não é um meio que favorece a humanização das pessoas. Tem que se mexer em um núcleo social, o jogador não é uma máquina feita para só ganhar e dinheiro".


"Geralmente o jogador, quando é criança, vem de uma família desestruturada. Muitos jogadores saem com 12, 13, 14 anos de condições adversas. Tudo isso faz com que ele não tenha poder de se articular, por exemplo. E o futebol e os clubes não levam isso em consideração. O jogador é tratado como objeto" .

Matéria completa: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2012/12/07/infeliz-como-jogador-fernando-diniz-cursa-psicologia-e-vira-tecnico-parar-curar-angustia-pessoal.htm


É evidente que por ser um técnico fora da mídia, de um clube que na época estava na segunda divisão de São Paulo, a entrevista pouco reverberou. Daí nota-se a importância de um movimento como o Bom-Senso FC (ver) ser liderado por jogadores “midiáticos”, já que, muito do que Diniz destaca é levantado pelo grupo ou você pode encontrar no livro do “líder”, Paulo André (http://www.pauloandreoficial.com.br/site/livro/). Mas, o foco do assunto não é o Bom-Senso (como grupo) e sim os pontos levantados pelo Diniz.

É interessante ouvir um ex-atleta falar: “Eu sofria muito quando era jogador. Não fui um cara que teve felicidade de ser”. Ao comentar isso, ele destaca algo que muitos outros podem estar passando que é o fato de “não gostar de sua profissão” e por isso, sofrer. No "mundo normal" muitas pessoas passam por alguma profissão ou empresa que não gosta e onde é infeliz, e isso é totalmente "aceitável" e compreensível. Todavia, por ter uma áurea, diria, “romantizada”, o jogador de futebol meio que perde esse direito. Mesmo que 82% dos jogadores no Brasil (ver) recebam no máximo dois salários mínimos, nos acostumamos a achar que a profissão é uma maravilha, que, como diria o clichê: “eles são pagos para se divertir” ou “eles são pagos para correr atrás de uma bola”, deixando de lado questões como: distância da família, péssima condição de moradia (em times pequenos e até grandes), pressão interna do clube, pressão de empresário, etc.

Só para ficar em um exemplo, falando por experiência própria inclusive. É horrível ficar sem receber  na data correta, chegar no fim do mês e não ter o salário. E por mais que você seja profissional é impossível um dado momento não vir na sua cabeça coisas do tipo: “como eu vou pagar aquela conta?”, e isso não afetar seu rendimento. No entanto, quando isso ocorre com jogadores de futebol que muitas vezes ficam 2...3...4 meses sem receber e por isso “não se esforçam”, são tratados como “mercenários” ou pior, “estão lá roubando o dinheiro do clube”, pouco se leva em consideração se eles realmente não estão “se esforçando” ou se há uma barreira, até psicológica diria, para isso. Poucos tentam se colocar no lugar. Apenas cobram "profissionalismo", em um ambiente que muitas vezes não é profissional. 

E aí entramos no segundo trecho da entrevista do Diniz. “O ambiente do futebol profissional trata os jogadores como máquina e ignora seus sentimentos. E não colabora para que eles se desenvolvam politicamente e culturalmente”. Muitos podem falar, “ahh mas o jogador ganha muito”. Como mostrei antes, essa não é a realidade, mas, mesmo se fosse, isso é motivo para que sua vida pessoal seja castrada? Só porque um jogador ganha 500mil, 600mil, etc. ele deixa de ter pai, mãe ou alguém que tenha apresso. Eles deixam de ter problemas de relacionamento? Eles ficam imunes a problemas com álcool, drogas, etc. Dá para dizer que o dinheiro compra “equilibrio psicológico”?.

Pegando alguns exemplos de jogadores que “se perdem” (Adriano talvez seja o maior atualmente), dá para ver que isso ocorre frequentemente. Porém, ao invés de se tentar levar em consideração o lado humano, o que acontece muitas vezes, por parte da mídia e torcedores é a culpabilização da vítima, ou seja, o “milionário jogador” que é “pingunço”, “irreponsável”, “vagabundo”, etc. A culpa é dele e pronto. Como destaca o Fernando Diniz: "Ninguém sabe o que você acha, porque acha, porque você sofre, e o que pode ser feito para melhorar sua situação".

E isso nos leva a última declaração pontuada no texto. "Geralmente o jogador, quando é criança, vem de uma família desestruturada. Muitos jogadores saem com 12, 13, 14 anos de condições adversas. Tudo isso faz com que ele não tenha poder de se articular, por exemplo. E o futebol e os clubes não levam isso em consideração. O jogador é tratado como objeto”. Falando em relação ao Brasil, infelizmente o futebol é a principal via para um moleque pobre de comunidade se tornar “alguém na vida”. Por isso, se você é um negrinho da favela muitas vezes já nasce com a responsabilidade de ter “ginga nos pés”, ou seja, já não basta à vida (meio social) limitar suas escolhas, ele também impõe o que você deve escolher. Porém, como a maioria não acontece (como jogador), se torna mais um "qualquer" no meio de tantos.

No entanto, mesmo o que consegue chegar em um time profissional, pode muito bem não ser feliz. Usando uma frase do autor do título (Nietzsche): “Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?”. O fato de ser um jogador (algumas vezes famoso) não significa que ele é o que gostaria. Ele apenas escolheu essa profissão porque ela era uma das poucas oportunidades dele ascender socialmente. Mas, lá no início ele muito bem poderia querer ser jornalista, médico, engenheiro, etc. mesmo que ganhando menos. Ou seja, não foi ele que escolheu sua profissão (o que, convenhamos, influi diretamente na sua vida), o meio que “lhe obrigou” (entre aspas), a ser jogador. Eu ganharia muito mais sendo médico, piloto de Fórmula 1 ou ator de filme pornô. Mas, mesmo se conseguisse, essas profissões (entre tantas) não me trariam felicidade ou realização. E mesmo o dinheiro que poderia vir a ganhar não compensaria. E assim é com diversas pessoas. Mas, por que com jogadores deve ser diferente?

É evidente que os jogadores não são uma "classe especial" ou apenas eles sofrem com empregos ruins, etc. Pelo contrário, por mais glamour que ser jogador possa ter, eles são apenas mais alguns "operários", entre tantos, que trabalham "por trabalhar", sem prazer, apenas por "sobrevivência" ou por falta de "algo melhor". E também, é óbvio que o mundo do futebol não é composto integralmente por jogadores “socialmente abalados”, é claro que todos possuem seus erros, muitos são negligentes, irresponsáveis, etc. Porém, a questão é que, assim como qualquer pessoas “normais”, isso acontece porque eles são: humanos, demasiado humanos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mãe, eu sou petista


Antes que você cometa o erro de ser o motivo da minha crítica na postagem já adianto que, assim como os livros de Augusto Cury, o título não corresponde ao que está escrito. Eu não sou petista, nada contra e sem preconceito, tenho até amigos que são.

Eu compreendo de boa a opção “sem partido” das pessoas, do: “eu voto na pessoa e não no partido”, ou até mesmo o “prefiro votar nulo”. Ok. Também entendo a “crise de representação dos partidos” que, para muitos, motivou os protestos ano passado. Até aí, beleza. No entanto, o que vejo pelas minhas andanças pela internet e “no mundo real” (adoro separar a internet do ~mundo real~) é uma certa ojeriza a quem é partidário. Meio que: “Nossa. Sério que você petista? que ridículo!”. E aí caímos em críticas ad hominem e generalizações das mais bizarras. Tipo, se a pessoa é petista logo ela é: “mensaleira”, “burra”, “alienada” e defende uma ditadura comunista no Brasil. Não creio que seja lá muito justo esse tipo de generalização.

Assim como no futebol existem torcedores fanáticos que não conseguem enxergar nada além do seu time, na política, o mesmo ocorre com partidários (de todos os partidos), porém, isso não pode ser tomado como se fosse regra. Por mais que exista a “crise da representação”, os partidos continuam sendo influentes e importantes em nossa (nossa!!!) democracia, sendo assim, o partidarismo nada mais é do que uma opção, que gosto de entender como pessoal, de um modo/maneira de viver a política, mas, isso não impede, até onde sei, a pessoa de raciocinar por si só e saber separar as coisas. O fato de alguém ser petista não significa que ele vá concordar com todos os rumos que o partido tome e que apoiará todos os (vários) erros do PT. Ser partidário não significa, em geral, não ter senso crítico. 

Cito o PT por ser atualmente o partido mais emblemático. Porém, o mesmo vale para os demais. O fato de alguém ser filiado ao PSDB não significa que ele seja um: “tucano entreguista que defende a privatização total do Brasil pelos Estados Unidos”, o fato de alguém ser do PMDB, não significa que ele apoie o Sarney, ou que todos do PSTU desejam uma revolução comunista através das armas. Generalizar e singularizar algo tão complexo (e bota complexo nisso) que são os partidos políticos no país, apenas enfraquece o debate e maior conhecimento sobre esse, diria, meio social. E “idiotizar” qualquer partidário sem ao mínimo lhe dar o direito de expressar sua opinião, como alguém que consiga raciocinar por si só, é... digamos... um pouco anti-democrático (irônico, não?). 

E isso não vale apenas para os "comuns". Outro fator importante nesse meio todo é o partidarismo da imprensa. Dizer que a imparcialidade é uma lenda, para quem estuda comunicação, é quase uma unanimidade, todavia, isso não significa que se determinado grupo de comunicação, ou mesmo pessoa, que assume ser partidário, será automaticamente um “vendido” e qualquer tipo de informação passada por esse meio (ou pessoa) não deverá ser levada em consideração. Existem diversos jornalistas que não são partidários, porém, são extremamente mercenários (olá, tudo bem?), e outros que mesmo assumindo “ser de um lado”, conseguem fazer seu trabalho da forma mais coerente possível. E aí cabe curiosamente a muitos que criticam a “cegueira” de quem é partidário, saber minimamente refletir, sem qualquer tipo de pré-conceito, sobre o que é uma informação coerente (esqueça a imparcialidade) e uma totalmente manipulada (adoro essa palavra, nunca sai de moda).


"A liberdade para os partidos é uma coisa, e essencial; o governo pelos partidos outra, e dispensável". Agostinho Silva.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando Bosco foi o melhor goleiro do mundo...


Meus pais não gostam de futebol. Por isso, não nasci numa casa com o “convívio social” propenso a gostar do esporte. Mas, é aquilo, sempre tem um tio (no meu caso dois tios) que levam você para o “mau” caminho. Nesse caso, ser torcedor do Sport (admitam, poderia ser pior).

No entanto, o assunto não é como me tornei, e sim, como era, quando criança, ser torcedor. Comecei a gostar do esporte (e do Sport) lá pelos anos de 98, 99... E nessa época, até por ser goleiro no mirim-a do meu colégio, era fã do Bosco (ex-goleiro do Sport). Para mim ele era o maior goleiro do mundo (apesar de que, de fato, ele era um dos melhores do país). Eu nunca tinha ouvido falar no Schmeichel (dinamarquês do Manchester United, em tese, o melhor naqueles anos), no Oliver Kahn que já se destacava no Bayern, Pagliuca ou até mesmo no Taffarel, esse último, só na Copa de 1998. Na minha “inocência”, o maior do mundo era o Bosco (e aí de quem duvidasse), vibrava com suas defesas e quando fazia as minhas, claro, não titubeava em gritar “Defende Bosco!!!”. Sim, eu queria ser ele.

O tempo passou, comecei a gostar e acompanhar mais o futebol nacional, estrangeiro, história, jogos antigos, etc. Enfim, fui me “especializando” no tema. E hoje, óbvio, rio da minha antiga ingenuidade. E apesar de ser muito fã do Magrão (atual goleiro do Sport), não diria que ele é o “melhor do mundo” (mesmo sendo melhor do que foi o Bosco e um dos melhores do país).

Porém, aí que está a questão...Vivemos no “mundo da informação”, hoje é bem mais fácil ter acesso a notícias de times e jogadores de todos lugares do mundo, assistir diversos campeonatos, pesquisar números/estatísticas, história, etc. E isso está criando uma das piores pragas que existe: o “especialista de futebol arrogante”. E o que é isso? É aquela pessoa que “não é clubista” (e se orgulha disso), que gosta do futebol pelo esporte em si (não torce para ninguém), acompanha de tudo e entende do riscado (ou acha que entende). Até aí, ótimo, nada contra esse tipo de espectador. Mas, o problema começa quando ela acha que o esporte lhe pertence (é quase um elitismo “intelectual”) e passa a ignorar a “inocência” de quem apenas (e tem todo direito disso) acompanha seu time.

Essa pessoa é aquela que fará cara feia quando um torcedor do Santa Cruz (e que se preocupa apenas com o tricolor) falar que o Caça-Rato é o melhor jogador do time (ou do Brasil). “Você não entende de futebol. Os números mostram que André Dias é disparado um jogador melhor”, dirá nosso idiota da objetividade. Se um “torcedor comum” falar que o jogador do seu time (no Brasil) é melhor que o algum jogador do Barcelona, nosso “gênio”, provavelmente infartará... falará que não se compara o nível, que o futebol aqui é uma várzea, que o futebol europeu é o melhor do mundo, etc. Ele está errado? em tese, não. Mas, sua prepotência, sim. Sua tentativa de contrapor o lúdico com o lógico de forma arrogante, é patética.

O mundo do futebol também é lúdico e não objetivo. O do meu time é melhor porque é do meu time e pronto. Eu não me importo com números, nível, etc. não acompanho futebol pelo esporte em geral, acompanho porque gosto do meu time, simples. Ninguém pode ser culpado por não entender a fundo de algo (ser “especialista”). É óbvio que os Beatles são melhores que o Molejão (ou não), mas, eu posso dizer que prefiro o Molejão pelo simples fato de ser o que escuto. Não pretendo ser um “perito” em música, apenas, ouvir o que gosto como uma grande “brincadeira de criança”.

Então, se pudesse voltar no tempo e falar comigo mesmo na época em comecei a gostar de futebol. Além de provavelmente provocar um furacão em Tóquio (ver) e dizer que eu deveria pedir a Márcia em namoro. Me daria um abraço e apenas confirmaria que realmente...O Bosco é o maior goleiro do mundo.


Eu fico com a beleza da resposta das crianças / É a vida, é bonita e é bonita. Gonzaguinha.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sobre reis, hienas e opressão


Mesmo sendo tratado como algo “inocente e para crianças” o filme “O Rei Leão” traz um discurso político-ideológico bem elaborado. Se fosse crítico de cinema Karl Marx talvez o definiria assim:

Somente se levarmos em conta o advento e a natureza do Estado moderno (poder soberano aplicado sobre toda uma nação), poderemos compreender a função implícita ou explícita da ideologia, sua tentativa para fazer com que o ponto de vista particular da classe que exerce a dominação (política) apareça para todos os sujeitos sociais e políticos como universal, e não como interesse particular de uma classe determinada.


Para não me alongar produzindo um texto que fale sobre todo o contexto político do filme, deixo 3 links (clique nos títulos) que tratam sobre o tema:





Dito isso. Vou a parte que interessa, que é, digamos... ...redimir as hienas do perfil “maligno” do qual foram retratadas na produção. E mostrar como dentro do contexto social do reino elas foram as maiores oprimidas.

No início do filme, o monarca absolutista, Mufasa, mostra ao príncipe Simba todas as suas “posses” (o reino), porém, deixando claro que ele evite o lugar sombrio (cemitério dos elefantes), onde, de forma reclusa, vivem as hienas. Algo que para muitos (como é dito no texto “Tirania de Mufasa”) pode ser visto como um Apartheid.

Além de, a princípio sem muita justificativa, não viverem no melhor local do reino, as hienas passam por outro (e o mais sério problema): a fome (além de outras injustiças), que é bem retratado no trecho mais simbólico do filme (caso o vídeo não abra abaixo, clique aqui):



No vídeo Scar deixa bem claro: “Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!". Pouco antes, as hienas reclamam de estarem “na rabeira da cadeia alimentar”, o que não tem sentido algum, por elas serem carnívoras. Ou seja, já que a definição biológica não explica, talvez Marx explique, dizendo que: "O Estado (O Rei Leão) aparece para representar os interesses da classe dominante e cria, para isso, inúmeros aparatos para manter a estrutura da produção. Esses aparatos são nomeados de infraestrutura e condicionam o desenvolvimento de ideologias e normas reguladoras, sejam elas políticas, religiosas, culturais ou econômicas, para assegurar os interesses dos proprietários dos meios de produção".

Mas, por que as Hienas? A explicação mais óbvia para isso é que elas são vistas como um “competidor natural dos leões”. Ambos são os carnívoros de maior destaque do filme (apesar de existirem outros). Dá para subentender isso ao ver que durante o reinado de Mufasa (e posteriormente de Simba), pouco se fala sobre a “obrigação da caça” dos leões, eles vivem em perfeita tranqüilidade, sossego e paz. Talvez porque, possuem comida em abundância e com fácil acesso (o texto A nobre família leão e as hienas retrata isso de forma interessante). No entanto, quando as hienas voltam ao reino (através de Scar) a obrigação da caça passa a existir para os leões (no caso, as leoas). Ou seja, a imagem que fica é que, numa espécie de “darwnismo social”, os leões (através do seu rei) veem a necessidade de segregar as hienas para, em tese, manter seu “status” e a boa vida. Ou seja, vai além até dos limites do capitalismo (da livre concorrência) e passa a ser tirania e absolutismo puro: “o reino pertencerá a você, Simba”.

A aproximação das hienas a Scar (pode chamá-lo também de Scarlin) é mais do que justificada quando ele promete (como pode ser visto no vídeo acima):

“Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!”

“Injustiças farei com que parem”


"Uma nova era onde leões e hienas conviveram juntos"


Convenhamos que quando se está segregado, com fome e “abaixo da cadeia alimentar”, qualquer promessa ou o mínimo de interesse por sua causa será bem vinda. Vale lembrar que antes de propor a união (o que, em tese, traria a ideia de verticalidade), Scar leva comida para as hienas. Seria possível dizer que elas pensavam (a princípio) em uma revolução plena que: “Conduziria à ditadura do proletariado, ou seja, o proletariado, em luta contra a burguesia e através da revolução, transformar-se-ia em classe dominante”. Isso pode ser visto quando elas clamam: “Morram os reis!” (sendo posteriormente repreendidas por Scar). Ahhh sim. No vídeo, o fato delas marcharem como fileiras sovietícas é apenas ilustrativo, certo? (risos)...

Porém essa revolução a princípio vitoriosa quando elas derrotam o rei (segregador) e voltam a conviver com todos os animais do reino (no início do “governo Scar”), passa, infelizmente para hienas, a não surtir tanto efeito, já que elas saem de uma monarquia absolutista para uma espécie de ditadura (não do proletáriado). Digamos que não há a ruptura necessária. Tanto que um dado momento, quando voltam a passar fome, as hienas contestam o governo do “Rei Scar” o comparando com o antigo rei.

Alguns podem colocar a culpa da debandada dos outros animais e da pobreza do reino, durante o reinado de Scar, na incapacidade das hienas. Algo que não tem muito sentido. Primeiro: Qual a culpa das hienas na falta de água ou de plantas? Quando viviam no sombrio e isolado cemitério dos elefantes elas não faziam por opção e sim porque eram obrigadas pelo rei Mufasa. Outro ponto importante é que quando lá vivam elas já possuíam uma grande população, então, mesmo passando fome, sobreviviam e se reproduziam, ou seja, subentendesse que se alimentavam (mesmo que pouco), sem afetar ou fazer com houvesse debandada. Há ainda a teoria que elas comiam a si próprias, difícil acreditar, mas, se fosse verdade, apenas justificaria mais ainda sua revolta. Vale lembrar que no início do filme Mufasa fala para Simba sobre a importância de “manter o equilíbrio do reino”. Mas, como pode-se manter o equilíbrio se uma parte importante do nicho é segregada?. Como diria Josué de Castro: “O que falta é vontade política para mobilizar recursos a favor dos que têm fome”.

As hienas não são nada mais do que a resposta de quem está marginalizado socialmente. Mais uma vez citando Josué de Castro: “A verdade é que os povos chamados subdesenvolvidos já se aperceberam da profunda contradição que existe entre os preceitos morais de igualdade, fraternidade e humanitarismo, pregados e defendidos pelos teorizantes da civilização ocidental e a crua e cínica disputa pelo lucro a que se entregam os grupos mercantilistas dominantes nos países bem desenvolvidos e industrializados do mundo”.

Elas simbolizam uma massa (que era grande) que estava cansada de passar fome, de ser a “paria social” (mesmo sendo forte). Apesar de participarem da revolução, não demonstraram apresso pelo poder, se fosse, elas poderiam governar (de fato) durante a “era de Scar”. Também nunca demonstraram a intenção de perseguir ou segregar seus inimigos. É interessante perceber que durante o reinado de Mufasa as hienas eram segregadas, porém, durante o reinado de Scar (em tese com participação das hienas), os leões não sofrem represálias (todos convivem juntos).

Essa demonstração de desapego ao poder e uma identidade de comunidade pode ser notada quando elas são tratadas abertamente como inimigas por Scar (quando esse as culpa pela morte de Mufasa) agem como inimigas contra ele, ou seja, elas estavam desapegadas de algum aparato ideológico. Em suma... apenas buscam “não passar fome” no reino da abundância. É... hakuna matata, para elas, é pura utopia.

Por fim, talvez o que mais redima as hienas seja o Rei Leão II. Nele, elas não aparecem, o reino é dividido entre “o reino de simba” e os “exilados de Scar”, porém, todos são leões. Na história dizem que as hienas fugiram. Mas, para onde? O fato de fugir, ou seja, o êxodo territorial, é algo muito comum em sociedades oprimidas. Foi assim na Ucrânia (e países do cortina de ferro) durante o regime soviético, foi assim com os judeus na Alemanha nazista, com os negros nos Estados Unidos (principalmente no sul), etc.

A forma como as hienas (ahhh sim, por sinal, o nome das três principais é: Shenzi, Banzai e Ed), lembra muito uma frase dita por Malcolm X: “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.