quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ensinem os jogadores da base a fracassar. Mas que eles tenham oportunidade disso


Acho que seria repetitivo em falar sobre o desejo de boa parte dos jovens brasileiros em se tornar jogador de futebol. O foco do texto não é esse e sim falar dos que conseguem ou chegam bem próximo, porém, fracassam. Para isso, usarei como base um exemplo que ao meu ver pode ser estendido a diversos outros casos bem parecidos.


Muito se fala sobre a utilização das categorias de base no futebol brasileiro. Porém, no geral, de uma ou outra maneira o foco sempre estará voltado para o resultado final: o jogador profissional do clube. E não para o que fica no meio: a pessoa e sua carreira. Ou seja, a ênfase será maior, nas melhores formas ou maneiras de um time aproveitar jovens da base no seu elenco principal e consequentemente lucrar com eles, com isso acabam esquecendo dos milhares e milhares de jogadores que basicamente iram fracassar. Em resumo, ao meu ver, boa parte dos clubes não se preocupam em ensinar aos jovens que, em sua maioria, eles não irão conseguir o que planejaram pra si, ser um jogador famoso. No entanto, isso não os tornará pessoas piores e muito menos significa que não podem ter uma carreira, mesmo no futebol, digna.


Dentro disso tudo há algo fundamental na construção desses jovens e que muitas vezes segue, de forma equivocada ao meu ver, a mesma metodologia. A psicologia nas categorias de base. No final do texto indicarei alguns artigos que reforçam esse pensamento. Porém, começarei com foco a um (
clique aqui pra ver completo):



“Não são poucos os casos de jogadores que se destacam nas categorias de base,mas que quando incorporados aos plantéis profissionais não conseguem manter  o mesmo nível de desempenho ou mesmo acabam abandonando a modalidade.
Dificuldades de adaptação? Aumento do nível de exigência? Mudança de foco? Provavelmente, todos estes fatores e mais alguns. Não é possível afirmar que a cobrança e expectativa por resultados seja diferente nas categorias de base e no profissional. Mas é relativamente fácil de observar que a exposição pública do jogador aumenta. E muito. Até existe cobertura de mídia nas categorias de base, mas nada comparado ao que ocorre nas equipes profissionais”. 

O artigo, que é bom, fala sobre questões importantes de o porquê determinados jogadores não conseguem chegar ao sucesso. Porém, mais uma vez, ele trata do produto final baseado no sucesso “o jogador que era destaque” e não necessariamente no básico, de do que é composta a maioria da base, “o jogador que é mais ou menos”. Os elencos das categorias inferiores são compostos por, digamos, 50 jogadores, entre sub-17 e sub-20, desses, no máximo e na média, sendo bem positivo, 10 conseguiram sucesso no futebol. E quando falo de sucesso é jogar uma Série B ou A. Os demais irão rodar por times pequenos, série B/C ou até D de estaduais e provavelmente não irão se sustentar apenas do futebol. E a grande maioria nem irá seguir na carreira.


Para isso é importante destacar esse levantamento da CBF que diz que: Mais de 80% dos jogadores no Brasil ganham menos de R$ 1 mil de salário (clique nas imagens abaixo para ir para os textos).



Em resumo, essa introdução serve para destacar que, na base, uma minoria “tem talento” ou se destaca a ponto de se tornar um profissional que se sustente através do futebol. A maioria vai, basicamente e sendo bem direto: fracassar. E aí voltamos ao ponto central do texto: Se as categorias de base dos clubes realmente se preocupam com o ser humano que irá fracassar em seu sonho de ser um grande jogador de futebol "famoso". 

A história de um jogador – Como disse, usarei um exemplo como recorte que, ao meu ver, engloba diversos e diversos jogadores. E ele é o do jovem que aos 14, 15 anos deixa sua cidade (no interior principalmente) para tentar a “sorte” de ser jogador profissional de um grande time (um exemplo aqui), que, na maioria das vezes são os que oferecem estrutura de base a jogadores. Ou seja, nesse momento ele passa a optar e entregar boa parte do seu futuro a um objetivo: ser jogador profissional. Muitos clubes (exemplo), como deve ser, oferecem toda a assistência, estudantil, médica, etc ao atleta. No entanto, por mais importante que seja, não há como negar que o foco do rapaz, pelo menos até os 18...19 anos, será ser jogador de futebol, sua rotina será de treinos, competições, alojamento, etc. Ele será apenas preparado para aquilo. E vale lembrar que diferente de outras profissões o futebol se resume a ele mesmo. Exemplo, se um jovem sai de casa para estudar engenharia em outra cidade, mesmo que não se torne um engenheiro de sucesso, ele, na pior das hipóteses terá um diploma, uma capacitação que o destacará em meio a pessoas que não o tenham. É um diferencial. Porém “se formar” jogador de futebol servirá apenas para ser jogador de futebol. No “mundo real” isso não é diferencial de nada, no máximo, se não tiver futuro profissionalmente, ele ganhará uns 50 reais em algum torneio amador que participe.
Mas voltando à história. Como digo na introdução, a maioria da base é composta por jogadores medianos, e esse jovem pode ser um desses. Chega ao clube, treina, fica no banco na maioria dos jogos do sub-17... estoura a idade, continua no banco no time sub-20...e encerra a carreira no juvenil. E aí? O que realmente foi feito do (ou para) o rapaz? O clube realmente se preocupou na “formação da pessoa dentro do seu objetivo” ou apenas na “formação de um atleta de elite que sirva ao próprio clube”. E e isso não se resume apenas na formação “moral” (como pessoa) de um jogador. E sim, na sensibilidade de dar a ele a oportunidade de uma formação profissional dentro do futebol, todavia, deixando claro que a chance dele ser “medíocre” (mediano) é grande.
Boa parte dos clubes, e aí muitas vezes por questões de empresários (outro fator que merece um texto a parte) ou interesses internos, basicamente prendem até onde podem os jogadores para depois simplesmente dispensá-los. E usando o exemplo citado anteriormente de forma prática, imagine esse jovem, sai do interior, etc... etc... ele basicamente construiu toda sua carreira juvenil em ser reserva ou ser titular com pouco destaque, com 20 anos, sem espaço na base e muito menos no time profissional ele é liberado/dispensado para “buscar novos times". Porém, como conseguir novos times, mesmo sendo pequeno, se você não tem o mínimo de portfólio (até conseguir empresário fica difícil), pouco se acompanha a base e os empresários que acompanham vão sempre buscar “os destaques” (que, inclusive, muitas vezes flopam o texto acima – esse – é ótimo sobre isso), porém poucos se importam com o “carregador de piano” ou o jogador “comum” que poderia muito bem, até porque a maioria dos jogadores em geral são “comuns” (é uma questão de oportunidade) conseguir um certo destaque em times menores e ter uma carreira minimamente digna. Ao fim o clube lhe nega isso apenas o tratando como um “objeto de uso futuro” que na maioria das vezes não irá usar. É a mercantilização de um sonho, de um objetivo.

Em resumo, os clubes formadores não se preocupam em formar jogadores medianos para outros clubes menores. A preocupação e foco, em geral, é formar jogadores para uso interno e descartar no momento que tenha interesse. Porém, como falado anteriormente, 80% dos jogadores estão encaixados no primeiro exemplo, e deles, boa parte se perde. Seria mais ou menos como se você tivesse uma escola em que a preocupação fosse de formar 10 pessoas, sei lá... em medicina. E as demais, bem, que se virem. Não lhe é dado mercado. Imagine se você é estudante de arquitetura e consegue um estágio onde você trabalha apenas “como estagiário” não tem qualquer aproximação com o trabalho profissional, dia-dia, etc. Que tipo de profissional você será? Que estrutura lhe darão para ir ao mercado? O mesmo vale para esses jogadores, e de forma até mais cruel porque, como falei anteriormente, o futebol se resume a ele mesmo. 


Muitas vezes as categorias de base se restringem apenas a fazer uma grande peneira onde os melhores passam e os medianos que se virem depois, sendo que você, como clube, ocupou 4...5 anos fundamentais da vida do jogador/pessoa. E repito, dar estrutura de alimentação, saúde e mesmo escola é o mínimo que o clube deve fazer. A questão aqui é dar a “estrutura profissional” para ele de seguir uma carreira, pelo menos mediana dentro do que foi preparado por anos.

E o que deveria ser feito? Ao meu ver, ter como objetivo central formar jogadores por formar, para os outros clubes utilizarem, sem o interesse real em “fazer dinheiro” com ele. Até porque essa será a realidade da maioria. É claro que existem as estrelas na base e esse terão um “tratamento especial” (que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda). E é óbvio que os clubes também podem lucrar com a base. Porém, sem esquecer que estão trabalhando com pessoas e a maioria ali não irá “muito longe” e que deve-se saber trabalhar isso, deixar claro que o fracasso será natural a grande maioria.

Se o jogador com 18, 19 anos ainda não subiu e joga ativamente no profissional é porque provavelmente ele não é um "diferenciado", então, empresta pra time menor. Dê a oportunidade a ele de construir uma carreira. Por exemplo, ele pode sair de um São Paulo, onde não teria espaço, para jogar a série A3 no Taboão da Serra. Porém, estará jogando, se, como acontece com a maioria, não “der certo” no time grande ele terá minimamente tem a oportunidade de construir uma carreira profissional em times menores, em “arriscar”. Vai que ele faz uma boa temporada num time da A3 e é contratado para jogar uma série B, C... já subirá de patamar. Até porque, repito, a maioria dos jogares são medianos. É bem possível que um jogador que é reserva do Boa Esporte (que disputa a série B) e ganhe, sei lá, 6 mil reais, seja do mesmo nível de um jogador que joga a 4° divisão de São Paulo pelo XV de Jáu e recebe 1 mil. É tudo apenas uma questão de oportunidades, formar portfólio, ter seu momento, motivação, etc. E a partir do ponto em que um clube com estrutura, que já tem um nome no mercado “prende” seu jogador na base (como estagiário) ele tira dele essa oportunidade.

O que acontece é que muitas vezes um jogador que seria mediano, no entanto, teve uma estrutura de base, perca espaço para outro mediano sem estrutura e que subiu “de qualquer jeito” em um time menor. E isso cria um círculo vicioso que acaba sendo ruim pra ambos. É ruim porque o jogador de base formado “sem estrutura” normalmente já tinha outros objetivos, outra construção e mentalidade, talvez até mais conformista, o que leva a uma diminuição de seu potencial de formação. Resumindo ele não foi "moldado" para ser jogador de futebol, ele tinha talento, se fosse, beleza, se não, tudo bem também (existem, óbvio, exceções). Já o atleta (de time grande) é formado “para ser atleta” é estruturado para aquilo, porém, muitas vezes, acaba ficando “preso” ao circulo que falei anteriormente, ou seja, a categoria de base. Isso frustra. Causa decepção. Diminui sua potencialidade. Nesse caso ele foi "moldado" para dar certo, mas, como na maioria das vezes, e se não der?

Até porque, usando o exemplo anterior, imagine você saindo cedo de casa com o sonho de ser profissional, sendo acompanhando a distância pelos seus pais/família que provavelmente esperam que seu filho jogue num time grande, e aí passa um ano e você na base, passa outro e você continua lá, faz um treino esporádico com o time profissional mas, não sai da base, enquanto isso talvez algum companheiro seu já tenha subido (o que causa frustração) e no final de tudo você “volta pra casa” (pra família) dizendo que não conseguiu jogar no profissional e vai procurar outro time (menor). O abalo que isso causa na sua família e consequentemente em você é alto, principalmente se não tiver uma estrutura que lhe indique, desde cedo que você vai/pode fracassar (A maioria fracassa, a probabilidade disso acontecer é maior). Isso pode fazer com que alguém que poderia ser um jogador mediano de clubes medianos, se torne uma pessoa frustrada (e aí abala a formação humana mesmo).

Finalizando e como “considerações finais” é que os clubes formadores devem saber que seu principal papel é: Formar jogadores para outros times. Que eles não irão ter lucro com a grande maioria, mas, a partir do momento em que trabalham com jovens devem ter na mente que possuem essa responsabilidade de dar a oportunidade de formação profissional (média) a todos. A responsabilidade de, repito, fazer a base para que outros (times), de menor poder aquisitivo, utilizem.  


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Alguns artigos sobre psicologia na base:

Futebol: O papel importante das categorias de base


Tabu no futebol, psicologia ajuda a explicar sucesso de Ronaldo e fracasso de Pato

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Roteiro...


Eu escrevi um roteiro
Um longo roteiro...
Li uma vez e queimei
Para passar a segui-lo

Continuarei seguindo algo que planejei
Porém, poderei incluir novas lembranças
Poderei deixá-lo solto, sem páginas para prendê-lo

Um dia talvez eu esqueça que tenha escrito um roteiro
Sem problemas...
Ele não foi feito quando o escrevi, e sim quando o queimei

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Simpatia e empatia


Aceito a tese de que diversas personas compõem a personalidade de uma pessoa. No entanto, para este texto, como sugere o título, focarei em duas das principais e que estão dentro da maioria de nós. A simpatia e a empatia. 

Dentro de todo um arcabouço de vivências dois tipos de personalidades se destacam. Existem as pessoas que falam pra muitos, que se expõem mais, estão em mais lugares e, com as redes sociais, dão opiniões sobre mais coisas. Elas parecem mais vivas, presentes, carismáticas. Essas são as pessoas simpáticas. Em contrapartida existem as que seguem o caminho, de certa forma, contrário, se expõem menos, se comunicam menos, parecem estar menos presentes e possuir menos carisma, por mais paradoxo que seja, essas são as empáticas.

Uso como exemplo os professores. Alguns conseguem falar para uma turma inteira (de 50 alunos), a mesma mensagem, os mesmos ensinamentos, no entanto, sem profundidade. Vão lá, dão sua aula da melhor forma possível e pronto. Esses são os simpáticos. E têm os que falam para menos, sua mensagem talvez não seja muito bem entendida por todos, porém, ele buscará sempre imergir da forma mais precisa nos alunos que têm mais potencial ou dificuldade, buscará observar as peculiaridades, e seus ensinamentos, para esses, irão fazer total diferença. São os empáticos.

E é assim. Uma pessoa simpática nunca conseguirá imergir de fato, nunca conseguirá ser 100% presente, porque, como disse anteriormente, seu círculo de relações é muito grande e ela sempre, por seu espírito protagonista, irá buscar empilhar mais e mais pessoas, e é impossível, assim, entender cada uma em sua individualidade. Não há o individual em multidões, há um eco que, talvez, lhe faça bem.

Já a empatia requer um trabalho a mais, uma disposição e talvez frustrações. Você mergulha em relações (em geral), absorve problemas, busca soluções, tenta enxergar, de fora, o que o outro não consegue ver. Isso lhe torna um/uma especialista nas pessoas. No entanto, também lhe torna mais sobrecarregado e com menos possibilidades. Lhe expõem a erros e, principalmente, lhe coloca em um estágio de coadjuvância.

Feita a separação é importante pontuar a proximidade. Evidentemente perfis se relacionam, empáticos não vivem com empáticos e simpáticos sempre com simpáticos. Não, pelo contrário, há uma troca. Para os simpáticos muitas vezes é necessária a existência de uma pessoa empática, mesmo que você busque uma vida com menos relações de imersão, sempre mais superficiais, sempre se movimentando e trocando peças de forma rápida, você precisará de algum tipo de porto seguro (que muitas vezes foge as relações familiares), precisará de alguém que minimamente saiba mais sobre você até porque, pelo caminho que você buscou, nem você sabe tão bem sobre si mesmo/a. Você pisa em vários caminhos porque lhe faz bem viver uma certa plenitude, no entanto, muitas vezes, não percebe onde pisa e pra isso conta o auxílio da empatia para lhe dizer “por aí não”.

Já o empático precisa do simpático para suas emersões, quando se imerge é necessário sair um pouco à margem para respirar, se atualizar. Talvez um dos maiores problemas do empático é se afogar (pois está preso) em sua própria empatia. Ignorar opções, perceber que é sempre possível emergir para imergir em outras situações. Ou seja, não consegue encontrar aquela luz na parte de cima. E, para isso, se apegar a luz de uma pessoa simpática (que normalmente são mais iluminados), o que se torna um refúgio. Um escape. De algum modo uma forma de se sentir mais presente. Menos coadjuvante.

Pessoalmente acredito que existem desvantagens para ambos. Mas não faço juízo de valor de bom ou ruim em ambos os perfis. A superficialidade não necessariamente é algo mau, pode ser apenas uma resposta a indiferença, medo, anseios. Assim como imergir demais pode fazer com que você não tenha forças para voltar ao topo e se afogue. Talvez algumas pessoas achem que o melhor é encontrar o meio termo. Não sei. Meio termo já possuímos na vida por limitar nossas escolhas. Em relação a isso, um meio termo em dados momentos poderia ser proveitoso, em outros, e principalmente se fosse feito de forma forjada, nos levaria a negação do que somos e a busca do que não somos. Não seriamos nada.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Derrotas



Ano passado escrevi uma série “Por que Escrevo” onde trato de temas como medo, ansiedade, nostalgia e o tempo, caso tenha curiosidade, só clicar aqui. Este ano tentarei sair de questões internas para externas. E começo pela mais presente de todas. A derrota.

Existe uma frase que diz que morremos várias vezes em vida, morremos quando relacionamentos acabam, quando partes de nós morrem, quando momentos morrem, enfim, morremos toda vez que sabemos que não conseguiremos mais repetir momentos. São mortes. São derrotas. A certeza da morte anda paralela com a derrota. Não adianta, tudo que fizermos de melhor no mundo se findará, tudo que gostamos, sonhos, desejos, ambição, conseguindo ou não, terá um fim. E o pior da derrota é que ela sempre acompanhará os bons momentos. No entanto, os bons momentos nem sempre acompanham as derrotas. Muitas vezes, na verdade, na maioria, nós perdemos apenas por perder, sem qualquer bônus. Tá, até nos enganamos falando que ficam as experiências, às vezes sim, outras, é apenas um engodo para nos fazer dormir melhor.

Eu sei. O início do texto parece muito pessimista, pesado, rancoroso e determinista. Talvez Cioran tivesse orgulho de mim ao ler. Talvez. Porém não é. Esqueçam o maniqueísmo de bom ou mau, feliz ou triste. Normalmente não há separação, todos estão juntos, estão lá. E a derrota, como falei, é apenas mais uma de suas consequências. Não a culpe.

Todos somos derrotados, todos! Em algum momento da nossa vida abriremos mão de algum objetivo, aceitaremos frustrações, viveremos negações e teremos derrotas. Ela é inerte muitas vezes ao ato de levantar, quando não podemos ficar mais “uns vinte minutos” na cama. O que é a derrota se não o fato de não conseguir seus objetivos? Quando o time não vence o jogo (levando em consideração que não há empate na vida), ele perde. E a vida é assim, se quando jovens temos determinado objetivo e não chegamos a ele, não é porque “pensamos diferente” ou somos outra pessoa, é porque a vida nos trouxe a derrota. Em dado momento percebemos o quanto aquilo não fosse o que pensamos e, sendo assim, perdemos! Os sonhos e momentos em que almejamos aqui, são derrotas que ficam.

Mas não só de pessimismo vive esse texto. As derrotas não levam apenas ao “ruim”, sem maniqueísmos. Como falei anteriormente, acho que essa conversa de “amadurecer nas derrotas” apesar de verdadeira, muitas vezes, não é o ponto final. Para mim, o ponto mais importante da derrota é que ela nos revela até onde somos fortes, até onde vai nosso devir, até onde estamos girando, vivendo, respirando, sonhando, buscando, e, claro, perdendo. Ela é uma consequência da ação. Ela é uma consequência da vontade e do desejo (não o Kantiano). Enfim, a derrota é a principal consequência da vida.

Existem times que entram no campeonato apenas pensando no título. Apenas o vencer importa. Sua torcida não vive cada gol, não vive cada pequena vitória, porque, pensa apenas no objetivo final, ser campeão. Algo que é para poucos. E existem os times que perdem a maioria dos jogos e praticamente entram sem chances de ser campeão em algo. Nesses times a torcida vibra a cada gol, porque sabe que pode ser o último, trata cada vitória como um título, cada grande jogo como um evento. Saboreia as pequenas vitórias, porque sabe que sua rotina é de derrotas. Pode não parecer, mas a segunda torcida talvez seja mais feliz.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Eu ainda lembro. Eu ainda estou aqui...


Na falta do que fazer resolvi olhar todas as minhas conversas no Facebook desde que tenho o perfil (2012). Sim, uma por uma (demora menos do que você imagina), indico bastante as pessoas fazerem isso por algum momento. Porém, admito, bate uma tremenda tristeza. Me lembrou muito do que Bauman (ver aqui) fala sobre relações nas redes sociais (relações liquidas).

No começo você passa pelas pessoas com que conversa de forma mais frequente, algumas menos, outras mais. Porém, com bastante frenquência. Essa parte é normal, no máximo você pensa: “Eita, nem respondi fulaninho, vacilo”. Quando vai passando e chegando nas pessoas que não conversa há uns 2...3 meses, tirando os casos de papos pontuais (algo de trabalho, curso etc), já vem aquele pensamento: “Porra, como assim faz 3 meses que não falo com essa pessoa? Por que? Ela era tão frenquente... como chegou a esse ponto e nem percebi”. 

Seguindo e de alguma forma aumentando a tristeza/nostalgia, entre pensamentos como: “oxe, quem é essa pessoa mesmo? Deixa eu ver aqui... Ahhh lembrei!” e...“Sério que eu ainda bati papo com isso?”... você começa a chegar nas pessoas que não fala há mais de um ano, algumas você entende, pois conversou devido aquele curso, aquele show, algo pontual, outras, simplesmente lhe deixam com o sentimento de: “Porra. Eu falava muito com essa pessoa ano passado, eu sei muito sobre ela, como assim não sei mais nada? Como assim ela 'deixou de existir'”... Como disse no começo, é triste. Você simplesmente começa a mergulhar numa
nostalgia e em questionamentos de como tudo passa rápido e termina de forma tão pouco importante. 

Mas, claro, as coisas podem piorar. Regredindo para 2...3 anos atrás, mais uma vez, tirando as conversas pontuais ou alguns “olá” ignorados, você basicamente se depara com um passado que de fato acabou. Olha que tenho boa memória. Mas, demorar a me recordar e pensar “quem é essa pessoa?” de gente que, mesmo que por um mês, estiveram tão fortes e frenquentes na minha vida, é triste, simplesmente porque sei que a recíproca deve ser verdadeira. Entrar na conversa e ver o que foi falado, que a última coisa dita foi algo não muito agradável, um “é melhor assim” ou apenas um emoji ignorado é desalentador. Ou, de uma forma mais dura, ver que aquela pessoa já morreu... 


E sabe o que é pior, além de alguma forma ter que encarar o
tempo. É imaginar que daqui uns 3...4 anos, quando fizer isso de novo, muitas das pessoas que são importantes pra mim hoje, estarão nesse, digamos, limbo. Que muito do que é dito, feito, vivido, no fim, é ignorado e vira apenas uma conversa antiga e cheia de poeira no Facebook.

Enfim, a vontade real é de ir em cada conversa de pessoas que foram importantes e pedir desculpa, de falar: “lembra daquele dia? Então, eu ainda lembro. Eu ainda estou aqui”...