sexta-feira, 5 de abril de 2013

Por que não podemos vender nossos órgãos?


E quando à política de doação de órgãos dos Estados Unidos, baseada na crença inabalável de que o altruísmo atenderá à demanda – será que está dando certo?

Não muito. Hoje, nos Estados Unidos, 80.000 pessoas estão na fila de espera por um rim, mas apenas 16.000 transplantes serão realizados este ano* (texto de 2010) o hiato torna-se cada vez maior. Mais de 50.000 candidatos a receptores morreram nos últimos 20 anos, com pelo menos 13.000 saindo da lista de espera, por se tornarem doentes demais para resistirem à cirurgia.

Se o altruísmo fosse à resposta, a demanda por rins seria atendida pela oferta imediata de doadores. Mas não tem sido assim. Essa situação levou algumas pessoas – inclusive, o que não é surpreendente, Gary Becker** - a sugerir o desenvolvimento de um mercado bem regulado de órgãos humanos, no qual os doadores em vida receberiam compensação em dinheiro, bolsas de estudo, isenções fiscais, ou outras formas. Até agora, a proposta tem sido rejeitada com repugnância generalizada e, por enquanto, parece politicamente inviável.

Lembre-se de que o Irã regulou um mercado semelhante quase 30 anos atrás. Embora esse mercado tenha suas falhas, qualquer pessoa no país que precise de transplante de rim não fica em fila de espera, pois a demanda tem sido plenamente atendida. O americano médio provavelmente não considerará o Irã um país de mentalidade avançada; no entanto, algum crédito merece o único país do planeta que reconhece o altruísmo pelo que é – e, muito importante pelo que não é.



*Trecho retirado do livro SuperFreakonomics publicado em 2010.

** Gary Becker http://pt.wikipedia.org/wiki/Gary_Stanley_Becker


----------------
---------------


Se tem algo que ainda não tinha parado para pensar era a questão da “doação x venda de órgãos”. Todavia, lendo este livro e alguns artigos e opiniões sobre o caso, resolvi, mesmo que ainda de formas simples, pensar/questionar/opinar sobre o tema, que, pelo visto, é um dos maiores tabus da “sociedade moderna ocidental”.

Talvez o maior questionamento sobre a venda seja o mais frágil, que é a “ética” e a (falsa) noção de solidariedade/altruísmo humano, que existe, evidente, mas, não da forma que se idealiza.

A questão da “ética” é algo que pode ser mutável. Um exemplo simples: Você pode passar por cima da sua ética e fazer algo que julga errado para defender ou ajudar alguém por quem tem apreço. Uma mãe (“de verdade”) faria qualquer coisa (qualquer coisa mesmo) por um filho, ignorando totalmente o que é “certo”, “errado”, ética, etc.

Então, no caso da doação, nada mais justo que passar por cima da “ética” e comprar (ou vender) um órgão para salvar (ou tentar) a vida de alguém, convenhamos o direito a vida é algo (com exceções) praticamente incontestável. Ahhh sim, sinceramente não sei até onde existem impedimentos religiosos, que não necessariamente estão diretamente ligados à ética, sobre o caso, mas, enfim, o Estado é laico (pelo menos espero).

Outro argumento que possa aparecer seria o de que, caso houvesse a liberação da venda, o sistema (falando de Brasil) de saúde não seria capaz de comportar o grande número de operações. Porém, nesse caso, seria um problema de estrutura e não da ação em si, se não (possivelmente) haveria a capacidade para comportar as operações é porque o nosso sistema está “preparado” para “salvar” um número limitado de pessoas.

Outro questionamento contrário bastante usado é o de que a liberação causaria a “mutilação” e o incentivo a pessoas mais pobres a venderem seus órgãos. O que é verdade. Porém, qual seria o problema? Vejamos...De forma sincera e baseado na realidade em que vivemos, a venda de algum órgão (rim, fígado, etc.) talvez diminuísse a expectativa de vida do vendedor, no entanto, boa parte das pessoas (pobres) que poderiam vir a vender já possuem (devido a desigualdade social, principalmente) uma baixa expectativa de vida, então a ação não mudaria em nada, ou melhor, a pessoa, com o dinheiro, poderia sair da “faixa de miséria”. Realmente, talvez não seja muito “ético” a atitude, mas, é “ético” passar fome? Não ter onde morar? É evidente que as pessoas não devem se submeter à venda de um órgão para ter o que comer, porém, infelizmente, a realidade não é essa, e medidas poderiam ser tomadas paralelamente a possível liberação, para melhorar e trazer mais dignidade (o que é obrigação dos administradores) as pessoas fazendo com que não fosse necessário vender.

Isso sem contar que a venda talvez pudesse servir como um “tapa na cara da sociedade”. Talvez já não choque mais alguém roubando para arrumar o que comer, pelo contrário, em alguns casos existe a revolta contra o “ladrão”. Mas já pensou alguém deixando claro que vendeu uma córnea (perdeu a visão de um olho) para comer. Seria significativo, não?. Isso sem contar que é inegável a existência de um “mercado negro” que é prejudicial tanto para quem vende como para quem compra, pois as operações (em alguns casos) são feitas em lugares sem a estrutura necessária.

Também fala-se muito sobre o fato de a partir do momento em que órgãos sejam vendidos só os mais ricos poderão comprar e serão beneficiados nisso. Em partes, sim. Porém, vale lembrar que se existe algo universal é a doença e que nas filas dos transplantes estão ricos e pobres, então a partir do momento em que se é liberada a venda a pessoa (rica) que comprar, sairá da fila, abrindo espaço para uma mais pobre. Até porque o órgão comprando já não seria doado mesmo. E também é evidente que a doação gratuita de órgãos continuaria existindo, existem pessoas altruístas, isso é fato. E assim... porque não,poderia ser regulamentado que, em caso de pessoas mortas (com possibilidade de doação), esse órgão não poderia ser vendido, apenas doado (como já ocorre atualmente).

Ampliando um pouco, creio que além de órgãos, o sangue também poderia ser vendido ao invés de apenas doado (claro, por um preço mais módico), por que não? É claro e notório que há um déficit de doação de sangue (mesmo sendo algo simples, fácil e positivo), então por que não comprar? Ou mesmo incentivar (financeiramente) que as pessoas com o sangue mais raro (-o), seja mesmo negociado? Quantas pessoas será que já não morreram por falta de sangue, ou mesmo que não tenham morrido, ficaram dias e dias em um hospital a espera de sangue sendo que o custo gasto na sua estadia no local poderia ser investido na compra do sangue que serviria para mais de uma pessoa.

Não vejo essa realidade levantada (não imposta) como “certa” ou ideal, no entanto, é algo real e que poderia ser útil. E também é evidente que ninguém iria montar uma barraca no centro da cidade com a placa “vendo rins, fígado e até um testículo, tratar aqui mesmo”, ou iria vender qualquer coisa que poderia vir atentar contra sua vida (como um coração), porém, há meios (até simples) de o que foi falado ocorrer... e que, talvez, ajudaria a salvar vidas... O objetivo não é esse?


Abaixo alguns links que tratam sobre o tema>

http://oglobo.globo.com/mundo/relatorio-pede-pacto-da-onu-contra-venda-de-orgaos-no-mundo-3156172


http://blogs.estadao.com.br/marcos-guterman/venda-de-orgaos-para-transplante-e-a-solucao/?doing_wp_cron=1365202574.7456231117248535156250

http://eventos.uenp.edu.br/sid/publicacao/artigos/31.pdf

http://super.abril.com.br/saude/se-venda-orgaos-fosse-legalizada-447505.shtml


“Os homens quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”. Maquiavel

terça-feira, 2 de abril de 2013

O que seus olhos Veem?


Estava voltando tranquilo, no ótimo (sem ironia, é bom mesmo) ônibus municipal para minha casa após um dia cansativo de trabalho/curso, quando ao lado da minha janela para uma espécie de Micro-ônibus da Polícia com presos dentro. Um deles, ao me ver observando o veículo abre um sorriso e faz gesto de cumprimento, prontamente respondo com a mesma atitude. E aí tem início um dos fatos mais interessantes da minha desinteressante vida.

Ao me ver gentilmente cumprimentar um preso, um conhecido que estava ao meu lado demonstra um certo desconforto e me indaga sobre minha atitude:

- É amigo de bandido agora, é? – comenta com certa ironia.

- Que bandido? Apenas vi uma pessoa me cumprimentando – respondo, com uma certa surpresa da reação do conhecido.

- Como assim “uma pessoa”? É bandido, cara. E se ele fosse a pessoa que, por exemplo, tivesse matado sua mãe, você cumprimentaria? – Questiona, crente que tinha dado um “xeque-mate”.

- Ué? Se fosse, ele seria a pessoa que matou a minha mãe e não “apenas” um bandido ou pessoa, teria uma conotação totalmente diferente em minha vida. Porém, se caso ele fosse o assassino e eu não soubesse, aos meus olhos, continuaria a ser apenas uma pessoa me cumprimentando. Por exemplo, o assassino da minha mãe, seguindo a lógica que você sugeriu, poderia ser meu pai e se eu não soubesse, continuaria a tê-lo como um grande exemplo.

Achei que tinha encerrado o assunto. No entanto ele divagou, pensou um pouco e continuou a discussão.

- Beleza. Veja bem, ele é um bandido, então, pense assim. E se ele tivesse matando uma pessoa nesse momento e lhe cumprimentasse, você responderia?

- Bem. Se isso ocorre. Ele passaria de uma pessoa, ou melhor, uma pessoa dentro de um carro me cumprimentando, para uma pessoa cometendo assassinato e me cumprimentando (risos) ou seja, eu teria um maior embasamento para julgá-lo, até porque sua atitude (de matar alguém) poderia ter alguma motivação justa. Por enquanto, aos meus olhos, ele é apenas uma pessoa, dentro de um carro, que me cumprimentou.

Ele passa quase um minuto em silêncio e decide, digamos, “apelar”.

- Ahhh tá. Então e se ali fosse um carro funerário, e levanta uma pessoa do caixão e lhe cumprimenta. Você responde de boa? Tecnicamente, aos seus olhos, seria “apenas” um pessoa lhe cumprimentando. E aí?

Entre risos e a duvida se ele tava falando sério ou já tinha passado para o nível “zorra total” de discussão, resolvi responder.

- Pô, cara. Muda de panorama né? Não é uma “pessoa” me cumprimentando e sim um zumbi ou Jesus Cristo... Enfim, mesmo assim, em ambos os casos eu responderia o cumprimento, sim.

Vendo que não tinha mais o que questionar ele resolve deixar claro o seu posicionamento.

- Bem, eu não vejo-o como uma “pessoa”, e sim um bandido. Vejo um preso, ele não é uma pessoa comum para mim. Diria que coloco o fator “local onde está”, ou seja, a prisão, na frente do fator “pessoa”.

Resolvi não prolongar a discussão, também não puxei outros assuntos, fui ouvir música até o término da viagem. No entanto, não poderia deixar de ficar pensando em como aquilo me tocou. Tipo, por mais que eu ache preconceituosa/estereotipada a forma de ver as pessoas dele, era a sua “visão de mundo”, ou seja, deve haver toda uma carga social por trás disso. Então eu poderia julgá-lo? Se fizesse não estaria sendo igual a ele? ... ...Enfim... E o que eram respostas seguras, virou duvida...


Não vou postar a já tradicional frase final e sim, a música "O que seus olhos Veem?" de Facção Central>  http://letras.mus.br/faccao-central/311917/

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A minha (e apenas minha) ótima infância


Não tem quando você fica com vergonha de ser algo pelas atitudes dos seus “iguais” (tipo ser palmeirense hoje em dia). Então, eu, como bom nostálgico, me sinto exatamente assim, com muita vergonha alheia, quando vejo “semelhantes” compartilharem e realmente acreditarem que sua infância foi melhor ou que “as crianças de hoje não tem infância” (alguns exemplos)

É claro que eu adorava assistir (ansiosamente) Dragon Ball Z para ver o planeta Namek explodir (em curtos 20 episódios), é óbvio que foi mágico virar o Metal Slug no fliperama usando apenas 3 fichas, isso sem falar do Winning Eleven 2002, e é evidente que minha infância foi muito melhor sendo um “rato” no Tazo. Porém, isso foi a minha infância e “apenas” isso e assim como ela não foi pior do que a de ninguém, também não foi melhor. 

Bancando o psicólogo (se o Malafaia pode, eu também posso) só imagino duas coisas que leva a pessoa a ter esse tipo de atitude nostálgica. Pensando positivamente seria o fato dela ter uma infância tão boa que em sua visão a de todos deveria ser igual. Claro, ela erra, pois o conceito de “ser bom” difere entre pessoas, existem pessoas felizes por torcerem pelo Sport e outras (pasmem) igualmente assim por serem torcedoras do Santa Cruz. Outra hipótese, a negativa, seria que a pessoa é um adulto tão medíocre que precisa lembrar da sua infância para ter algum parâmetro de algo “positivo” em sua vida. Igualmente errado. 

Ai vem os argumentos... “ahhh mas a tecnologia está isolando as crianças, hoje elas não brincam mais na rua ou com os amigos na escola”. Curiosamente a escola e a “rua” continuam existindo, porém, também curiosamente, à tecnologia "não existia" na época de quem pensa assim. E mesmo assim, boa parte desses “anti-tecnologia” são os mesmos que faziam qualquer coisa (e quando digo qualquer coisa é qualquer coisa mesmo) para poder jogar Play1 na casa do amigo, ou que sentia inveja do garoto que tinha celular na 7° série. Isso sem falar daquele carrinho de controle remoto que fazia com que escondessem o seu de lata (nada contra, eu particularmente adorava meu camiãozinho de lata, mas, aquela Ferrari de controle tinha lá seu charme). Outra coisa interessante nas pessoas “que tiveram infância” e que hoje se preocupam com as “crianças isoladas pela tecnologia”, é que não pensavam assim à época, quando não estavam nem ai para a garota gordinha isolada, ou para o rapaz mais tímido que não tinha amigos, ou mesmo (no caso das garotas) para aquele menino, pobre, mas simpático que sempre era preterido pelos “mais descolados” (pausa para chorar)... ...Enfim, não creio que as crianças hoje sejam “isoladas pela tecnologia”, até porque não precisa estar perto para estar junto. E se muitas ainda estão isoladas, estas são as mesmas que já existiam no passado, e pior, não tinham à tecnologia. 

Outro argumento interessante é a falta de coisas boas na atualidade, claro, no “passado maravilhoso” não existia Restart, Beleza! Nem vou discutir o público que o Restart busca atingir e tals. Mas, no “passado maravilhoso” existia Twister, lembram? (a analogia não é minha, porém também não vou dar os créditos), será que melhorou muito? “ahhh mas hoje não tem mais Mamonas Assassinas”...Assim... ...Eu até gosto de Mamonas Assassinas, no entanto, se esse é o parâmetro de “melhor infância”, sinto lhe dizer: você também não teve infância; E isso sem falar que graças à “malvada” tecnologia as crianças de hoje tem a oportunidade de ouvir Mamonas Assassinas, músicas da década de 80...70...60... etc. Ou seja, uma opção maior, talvez se os que “tiveram infância” também tivessem tecnologia o gosto seria moldado de uma outra forma.

E a questão da tecnologia também vale para a televisão. As crianças de hoje podem com “facilidade” encontrar tudo sobre todos os desenhos da manchete que você (que “teve infância”) gostava. No entanto, os desenhos que fizeram a infância (creio eu, também feliz) dos seus pais, você só ouvia falar... “ahhh mas os desenhos da manchete e alguns do Sbt e TV globinho eram os melhores”, claro, eram os únicos que você assistia, porque só tinha a oportunidade (meios) de assistir desenhos nesses canais, não tinha lá grandes opções, e assim, até teletubies fica maneiro. 

Outro argumento interessante é quando falam... “ahhh mas as crianças de hoje estão mais mal educadas”... Talvez seja porque os atuais adultos (que “tiveram infância”) não saibam lá educar muito bem. E se as crianças de hoje em dia tem mais acesso a “coisas ruins”, igualmente possuem a “coisas boas”, é só uma questão de orientação... “ahhh mas hoje eu vejo meninas com 13 anos pensando em homens”. Assim... ...Se a gente for lá no passado veremos que provavelmente sua vó talvez tenha se casado aos 13, 14, 15 anos...Mas, pegando algo mais recente, tipo, não é querendo ser chato...Porém, se quando você tinha 13...14...15 anos não notou que as garotas já tinham interesse em homens (ou mesmo em mulheres, enfim), digamos que você era meio “lento(a)”. Isso sem falar que se ela(e) tem mais liberdade para falar sobre sexo, tem mais condições/conhecimento de tomar as “decisões certas”. Vale lembrar que a taxa de fecundidade entre mais jovens vem caindo no Brasil (clique aqui)

Em suma, é isso... Fazendo uma analogia (minhas analogias são ótimas), infância é igual a nossa mãe. Existem pessoas que tiveram péssimas mães ou mesmo não tiveram mães e igualmente é com a infância (e no Brasil isso ainda existe demais). Porém, se você teve uma boa mãe, ela não é melhor (ou pior) que a boa mãe de ninguém. E se sua mãe só sabe fazer macarrão numa panela de barro velha, não significa que ela seja melhor (ou pior) que a minha que faz uma ótima lasanha em um forno moderno... (apesar de que a lasanha da minha mãe é melhor mesmo... ... ...PARA MIM!).


Pode-se ter saudades dos tempos bons mas não se deve fugir ao presente".
Michel de Montaigne