segunda-feira, 21 de março de 2011

Dom Helder Câmara e Frei Damião: os dois lados de uma mesma igreja.

Eles viveram boa parte da vida no mesmo Estado, Pernambuco, serviram à mesma Igreja, a Católica, sempre estiveram ao lado do povo, possuíam baixa estatura e uma força de vontade sub-comum, morreram na mesma década, mas mesmo assim foram tão distantes em seus ideais quanto os paises em que nasceram. Frei Damião, nasceu na Itália, cidade de Bozzano, em 1898, com o nome de Pio que em Latim significa: Piedoso, termo que poderia muito bem designar Hélder Pessoa Câmara, posteriormente Dom Helder Câmara, nascido em Fortaleza no ano de 1909.

Em 1923 enquanto Dom Helder aos 14 anos ingressava no Seminário Diocesano de Fortaleza, para dar início a sua vida religiosa; Frei Damião retomava os estudos teologicos, após ser convocado pelo exercito italiano para participar da 1° Guerra mundial. Após ser ordenado Padre, conseguir o diploma em Teologia Dogmática, Filosofia e Direito Canônico pela Universidade Gregoriana e lecionar no Convento de Vila Basélica e do Convento de Massa, ambos na Italia, Frei Damião, que era pertecente à Ordem dos Capuchinhos recebe a tarefa de vir ao Nordeste do Brasil, isso em 1931. Curiosamente esse ano marca a primeira missa realizada por Dom Helder, a epóca com 22 anos.

Na Década de 30, Enquanto Frei Damião começava sua longa e incessante caminhada pelo Nordeste brasileiro, se tornando mito entre os mais pobres e sendo conhecido como o “novo Padre Cícero”, designação que ele sempre rejeitou; Dom Helder vai para o Rio de Janeiro, onde morou por 28 anos, exercendo funções na Secretaria de Educação do Estado e no Conselho Nacional de Educação, porém assim como o Frei, sempre buscou estar ao lado dos pobres, ainda no Rio de Janeiro funda a Cruzada São Sebastião, para atender favelados e o Banco da Providência, destinado a ajudar famílias pobres.

Dom Helder foi por muito tempo o Secretário Geral do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nesse período sempre buscou a atualização e adaptação da Igreja Católica aos tempos moderno engajando-a na luta em defesa dos mais pobres, justiça e da cidadania, sempre levando a mensagem da Teologia da Libertação, da qual era seguidor. Indagado sobre essa mesma Teologia Frei Damião disse. “Vocês jovens façam a sua teologia da libertação. Deixem-me fazer as minhas pregações”.

E as pregações do Frei Damião a cada ano se tornavam mais popular e conhecida no Nordeste, a bem da verdade ele não era um grande orador, seus sermões eram decorados e repetidos por todos os locais em que passava, e se Dom Helder buscava a modernização da Igreja, o Frei representava um catolicismo antigo, tradicional, conservador e alimentador de um clima de incompreensão entre grupos diferentes, dizem que por sua causa cerca de dois mil católicos colocaram fogo em uma Igreja Evangélica na cidade de Patos na Paraíba. Seu dogma era baseado no Concílio de Trento (1545-1563), sempre indo contra valores do novo século como: a Pilula para mulheres, Dança, Minissaia, Casamento que não era realizado na Igreja, Sexo antes do casamento, para ele tudo isso levaria ao Inferno. O próprio Frei Damião se definiu como. “um homem do outro século”, nesse caso o século XIX.

Se Frei Damião levou a incompreensão entre grupos religiosos, Dom Helder seguiu caminho contrário, o que fica claro no seu discurso após a posse como Arcebispo de Olinda e Recife em 1964. “Sou um cristão se dirigindo a cristãos, mas de coração aberto ecumenicamente para homens de todos os credos e todas as ideologias”. Foi como arcebispo em Pernambuco que Dom Helder demonstrou todo seu engajamento com os fatores sociais, mesmo perseguido pela Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) Dom Helder Câmara nunca se calou e sempre esteve ao lado instituições que defendiam a democratização do país, por isso de 1968 até 1977 seu nome foi proibido nos meios de comunicação no Brasil e pessoas que o rodeavam foram presas e torturadas, chegando ao caso extremo do Padre Henrique Neto, seu assessor, morto em 1969, por membros do CCC (Comando de Caça ao Comunista). Já Dom Helder, que por sua luta ganhou a alcunha de “Dom da Paz”, sempre foi acusado de Traidor, Fascista (por sua participação no movimento Integralista) e comunista, pelos membros da Ditadura. do último adjetivo disse uma vez. “Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista".

O Frei Damião também sofreu repulsa, algumas vezes de pessoas dentro da própria Igreja, que o chamavam de fanatizador e por isso sua presença foi proibida em algumas cidades nordestinas como, Afogados da Ingazeira, Campina Grande, Crato, Palmeira dos Índios, etc. Sobre isso o Frei sempre evitou polêmica dizendo. “O dono é quem manda na sua casa, eu apenas sigo ordens”. Repulsa de uns, porém, acolhimento de vários, além da legião de fies que o seguiam, os políticos eram um publico assíduo nos seus discursos, muitos usavam seu nome politicamente, seja ele um pequeno vereador ou candidato a presidência, como Fernando Collor que usou imagens de Frei Damião durante sua campanha eleitoral para presidência. Sobre política o Frei demonstrou não dar muita importância ao assunto. “Os políticos prometem muito e nem sempre cumprem. Mas, de que vale essas promessas que são coisas materiais? Devemos pensar nas coisas da alma”. Já para Dom Helder a política sempre esteve presente de forma decisiva em sua vida, ele não só falava, como agia em parceria com órgãos do Governo, Líderes, colaboradores, teólogos, etc. Tanto é, que possuiu o telefone privado de 5 presidentes: Getulio Vargas, Café Filho, Juscelino Kubitscheck, Jânio Quadros e João Goulart; influiu na criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), participou das Diretas Já!, entre outros feitos. Sua importância foi tamanha que conseguiu, trinta e dois títulos de Doutor Honoris Causa, vinte e quatro prêmios dos mais diversos órgãos internacionais, além de ser o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz.

“Ser missionário é mergulhar na vida do povo”. Essa frase de Dom Helder Câmara, talvez seja a que melhor defina tanto ele como o Frei Damião figuras humilde que ao seu modo, estiveram sempre presente na vida e principalmente ao lado do povo. Frei Damião faleceu em 1997 com 98 anos, já Dom Helder em 1909 com 90 anos. Ambos faleceram no Recife, o corpo do Frei foi enterrado na mesma cidade, já o Dom está sepultado em Olinda. Eles tiveram poucos momentos juntos, mas sempre que isso aconteceu demonstraram total cordialidade. Perguntado uma vez se Frei Damião era santo Dom Helder respondeu. “É Claro! Ele é nosso! Apesar de nos pertecencer, é do mundo inteiro”. Pode não ter sido o caso, mas bem que Dom Helder Câmara, poderia não está se referindo apenas ao Frei Damião com essa frase.


"A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar".
Dom Hélder Câmara

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