segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mãe, eu sou petista


Antes que você cometa o erro de ser o motivo da minha crítica na postagem já adianto que, assim como os livros de Augusto Cury, o título não corresponde ao que está escrito. Eu não sou petista, nada contra e sem preconceito, tenho até amigos que são.

Eu compreendo de boa a opção “sem partido” das pessoas, do: “eu voto na pessoa e não no partido”, ou até mesmo o “prefiro votar nulo”. Ok. Também entendo a “crise de representação dos partidos” que, para muitos, motivou os protestos ano passado. Até aí, beleza. No entanto, o que vejo pelas minhas andanças pela internet e “no mundo real” (adoro separar a internet do ~mundo real~) é uma certa ojeriza a quem é partidário. Meio que: “Nossa. Sério que você petista? que ridículo!”. E aí caímos em críticas ad hominem e generalizações das mais bizarras. Tipo, se a pessoa é petista logo ela é: “mensaleira”, “burra”, “alienada” e defende uma ditadura comunista no Brasil. Não creio que seja lá muito justo esse tipo de generalização.

Assim como no futebol existem torcedores fanáticos que não conseguem enxergar nada além do seu time, na política, o mesmo ocorre com partidários (de todos os partidos), porém, isso não pode ser tomado como se fosse regra. Por mais que exista a “crise da representação”, os partidos continuam sendo influentes e importantes em nossa (nossa!!!) democracia, sendo assim, o partidarismo nada mais é do que uma opção, que gosto de entender como pessoal, de um modo/maneira de viver a política, mas, isso não impede, até onde sei, a pessoa de raciocinar por si só e saber separar as coisas. O fato de alguém ser petista não significa que ele vá concordar com todos os rumos que o partido tome e que apoiará todos os (vários) erros do PT. Ser partidário não significa, em geral, não ter senso crítico. 

Cito o PT por ser atualmente o partido mais emblemático. Porém, o mesmo vale para os demais. O fato de alguém ser filiado ao PSDB não significa que ele seja um: “tucano entreguista que defende a privatização total do Brasil pelos Estados Unidos”, o fato de alguém ser do PMDB, não significa que ele apoie o Sarney, ou que todos do PSTU desejam uma revolução comunista através das armas. Generalizar e singularizar algo tão complexo (e bota complexo nisso) que são os partidos políticos no país, apenas enfraquece o debate e maior conhecimento sobre esse, diria, meio social. E “idiotizar” qualquer partidário sem ao mínimo lhe dar o direito de expressar sua opinião, como alguém que consiga raciocinar por si só, é... digamos... um pouco anti-democrático (irônico, não?). 

E isso não vale apenas para os "comuns". Outro fator importante nesse meio todo é o partidarismo da imprensa. Dizer que a imparcialidade é uma lenda, para quem estuda comunicação, é quase uma unanimidade, todavia, isso não significa que se determinado grupo de comunicação, ou mesmo pessoa, que assume ser partidário, será automaticamente um “vendido” e qualquer tipo de informação passada por esse meio (ou pessoa) não deverá ser levada em consideração. Existem diversos jornalistas que não são partidários, porém, são extremamente mercenários (olá, tudo bem?), e outros que mesmo assumindo “ser de um lado”, conseguem fazer seu trabalho da forma mais coerente possível. E aí cabe curiosamente a muitos que criticam a “cegueira” de quem é partidário, saber minimamente refletir, sem qualquer tipo de pré-conceito, sobre o que é uma informação coerente (esqueça a imparcialidade) e uma totalmente manipulada (adoro essa palavra, nunca sai de moda).


"A liberdade para os partidos é uma coisa, e essencial; o governo pelos partidos outra, e dispensável". Agostinho Silva.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando Bosco foi o melhor goleiro do mundo...


Meus pais não gostam de futebol. Por isso, não nasci numa casa com o “convívio social” propenso a gostar do esporte. Mas, é aquilo, sempre tem um tio (no meu caso dois) que leva você para o “mau” caminho. Nesse caso, ser torcedor do Sport (admitam, poderia ser pior).

No entanto, o assunto não é como me tornei, e sim, como era, quando criança, ser torcedor. Comecei a gostar do esporte (e do Sport) lá pelos anos de 98, 99... E nessa época, até por ser goleiro no mirim-a do meu colégio, era fã do Bosco (ex-goleiro do Sport). Para mim ele era o maior goleiro do mundo (apesar de que, de fato, ele era um dos melhores do país). Eu nunca tinha ouvido falar no Schmeichel (dinamarquês do Manchester United, em tese, o melhor naqueles anos), no Oliver Kahn que já se destacava no Bayern, Pagliuca ou até mesmo no Taffarel, esse último, só na Copa de 1998. Na minha “inocência”, o maior do mundo era o Bosco (e aí de quem duvidasse), vibrava com suas defesas e quando fazia as minhas, claro, não titubeava em gritar “Defende Bosco!!!”. Sim, eu queria ser ele.

O tempo passou, comecei a gostar e acompanhar mais o futebol nacional, estrangeiro, história, jogos antigos, etc. Enfim, fui me “especializando” no tema. E hoje, óbvio, rio da minha antiga ingenuidade. E apesar de ser muito fã do Magrão (atual goleiro do Sport), não diria que ele é o “melhor do mundo” (mesmo sendo melhor do que foi o Bosco e um dos melhores do país).

Porém, aí que está a questão...Vivemos no “mundo da informação”, hoje é bem mais fácil ter acesso a notícias de times e jogadores de todos lugares do mundo, assistir diversos campeonatos, pesquisar números/estatísticas, história, etc. E isso está criando uma das piores pragas que existe: o “especialista de futebol", arrogante. E o que é isso? É aquela pessoa que “não é clubista” (e se orgulha disso), que gosta do futebol pelo esporte em si (não "torce" para ninguém), acompanha de tudo e entende do riscado (ou acha que entende). Até aí, ótimo, nada contra esse tipo de espectador. Mas o problema começa quando ela acha que o esporte lhe pertence (é quase um elitismo “intelectual”) e passa a ignorar a “inocência” de quem apenas (e tem todo direito disso) acompanha seu time.

Essa pessoa é aquela que fará cara feia quando um torcedor do Santa Cruz (e que se preocupa apenas com o tricolor) falar que o Caça-Rato é o melhor jogador do time (ou do Brasil). “Você não entende de futebol. Os números mostram que André Dias é disparado um jogador melhor”, dirá nosso idiota da objetividade. Se um “torcedor comum” falar que o jogador do seu time (no Brasil) é melhor que o algum jogador do Barcelona, nosso “gênio”, provavelmente infartará... falará que não se compara o nível, que o futebol aqui é uma várzea, que o futebol europeu é o melhor do mundo, etc. Ele está errado? em tese, não. Mas, sua prepotência, sim. Sua tentativa de contrapor o lúdico com o lógico de forma arrogante, é patética.

O mundo do futebol também é lúdico e não objetivo. O do meu time é melhor porque é do meu time e pronto. Eu não me importo com números, nível, etc. não acompanho futebol pelo esporte em geral, acompanho porque gosto do meu time, simples. Ninguém pode ser culpado por não entender a fundo de algo (ser “especialista”). É óbvio que os Beatles são melhores que o Molejão (ou não), mas, eu posso dizer que prefiro o Molejão pelo simples fato de ser o que escuto. Não pretendo ser um “perito” em música, apenas, ouvir o que gosto como uma grande “brincadeira de criança”.

Então, se pudesse voltar no tempo e falar comigo mesmo na época em comecei a gostar de futebol. Além de provavelmente provocar um furacão em Tóquio (ver) e dizer que eu deveria pedir a Márcia em namoro. Me daria um abraço e apenas confirmaria que realmente...O Bosco é o maior goleiro do mundo.


Eu fico com a beleza da resposta das crianças / É a vida, é bonita e é bonita. Gonzaguinha.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sobre reis, hienas e opressão


Mesmo sendo tratado como algo “inocente e para crianças” o filme “O Rei Leão” traz um discurso político-ideológico bem elaborado. Se fosse crítico de cinema Karl Marx talvez o definiria assim:

Somente se levarmos em conta o advento e a natureza do Estado moderno (poder soberano aplicado sobre toda uma nação), poderemos compreender a função implícita ou explícita da ideologia, sua tentativa para fazer com que o ponto de vista particular da classe que exerce a dominação (política) apareça para todos os sujeitos sociais e políticos como universal, e não como interesse particular de uma classe determinada.


Para não me alongar produzindo um texto que fale sobre todo o contexto político do filme, deixo 3 links (clique nos títulos) que tratam sobre o tema:





Dito isso, vou a parte que interessa, que é, digamos... ...redimir as hienas do perfil “maligno” do qual foram retratadas na produção. E mostrar como dentro do contexto social do reino elas foram as maiores oprimidas.

No início do filme, o monarca absolutista, Mufasa, mostra ao príncipe Simba todas as suas “posses” (o reino), porém, deixando claro que ele evite o lugar sombrio (cemitério dos elefantes), onde de forma reclusa vivem as hienas. Algo que para muitos (como é dito no texto “Tirania de Mufasa”) pode ser visto como um Apartheid.

Além de, a princípio sem muita justificativa, não viverem no melhor local do reino, as hienas passam por outro (e o mais sério problema): a fome (além de outras injustiças), que é bem retratado no trecho mais simbólico do filme (caso o vídeo não abra abaixo, clique aqui):



No vídeo Scar deixa bem claro: “Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!". Pouco antes, as hienas reclamam de estarem “na rabeira da cadeia alimentar”, o que não tem sentido algum por elas serem carnívoras. Ou seja, já que a definição biológica não explica, talvez Marx explique, dizendo que: "O Estado (O Rei Leão) aparece para representar os interesses da classe dominante e cria, para isso, inúmeros aparatos para manter a estrutura da produção. Esses aparatos são nomeados de infraestrutura e condicionam o desenvolvimento de ideologias e normas reguladoras, sejam elas políticas, religiosas, culturais ou econômicas, para assegurar os interesses dos proprietários dos meios de produção".

Mas por que as Hienas? A explicação mais óbvia para isso é que elas são vistas como um “competidor natural dos leões”. Ambos são os carnívoros de maior destaque do filme (apesar de existirem outros). Dá para subentender isso ao ver que durante o reinado de Mufasa (e posteriormente de Simba), pouco se fala sobre a “obrigação da caça” dos leões, eles vivem em perfeita tranquilidade, sossego e paz. Talvez porque, possuem comida em abundância e com fácil acesso (o texto A nobre família leão e as hienas retrata isso de forma interessante).

No entanto, quando as hienas voltam ao reino (através de Scar) a obrigação da caça passa a existir para os leões (no caso, as leoas). Ou seja, a imagem que fica é que, numa espécie de “darwnismo social” os leões (através do seu rei) veem a necessidade de segregar as hienas para, em tese, manter seu “status” e a boa vida. Ou seja, vai além até dos limites do capitalismo (da livre concorrência) e passa a ser tirania e absolutismo puro: “o reino pertencerá a você, Simba”.

A aproximação das hienas a Scar é mais do que justificada quando ele promete (como pode ser visto no vídeo acima):

“Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!”

“Injustiças farei com que parem”


"Uma nova era onde leões e hienas conviveram juntos"


Convenhamos que quando se está segregado, com fome e “abaixo da cadeia alimentar”, qualquer promessa ou o mínimo de interesse por sua causa será bem vinda. Vale lembrar que antes de propor a união (o que, em tese, traria a ideia de verticalidade), Scar leva comida para as hienas.

Seria possível dizer que elas pensavam (a princípio) em uma revolução plena que: “Conduziria à ditadura do proletariado, ou seja, o proletariado, em luta contra a burguesia e através da revolução, transformar-se-ia em classe dominante”. Isso pode ser visto quando elas clamam: “Morram os reis!” (sendo posteriormente repreendidas por Scar). Ahhh sim. No vídeo, o fato delas marcharem como fileiras sovietícas é apenas ilustrativo, certo? (risos)...

Porém essa revolução a princípio vitoriosa quando elas derrotam o rei (segregador) e voltam a conviver com todos os animais do reino (no início do “governo Scar”), passa, infelizmente para hienas, a não surtir tanto efeito, já que elas saem de uma monarquia absolutista para uma espécie de ditadura (não do proletáriado). Digamos que não há a ruptura necessária. Tanto que um dado momento, quando voltam a passar fome, as hienas contestam o governo do “Rei Scar” o comparando com o antigo rei.

Alguns podem colocar a culpa da debandada dos outros animais e da pobreza do reino, durante o reinado de Scar, na incapacidade das hienas. Algo que não tem muito sentido. Primeiro: Qual a culpa das hienas na falta de água ou de plantas? Quando viviam no sombrio e isolado cemitério dos elefantes elas não faziam por opção e sim porque eram obrigadas pelo rei Mufasa.

Outro ponto importante é que quando lá vivam elas já possuíam uma grande população, então, mesmo passando fome, sobreviviam e se reproduziam, ou seja, subentendesse que se alimentavam (mesmo que pouco), sem afetar ou fazer com houvesse debandada. Há ainda a teoria que elas comiam a si próprias, difícil acreditar, mas, se fosse verdade, apenas justificaria mais ainda sua revolta.

Vale lembrar que no início do filme Mufasa fala para Simba sobre a importância de “manter o equilíbrio do reino”. Mas, como pode-se manter o equilíbrio se uma parte importante do nicho é segregada?. Como diria Josué de Castro: “O que falta é vontade política para mobilizar recursos a favor dos que têm fome”.

As hienas não são nada mais do que a resposta de quem está marginalizado socialmente. Mais uma vez citando Josué de Castro: “A verdade é que os povos chamados subdesenvolvidos já se aperceberam da profunda contradição que existe entre os preceitos morais de igualdade, fraternidade e humanitarismo, pregados e defendidos pelos teorizantes da civilização ocidental e a crua e cínica disputa pelo lucro a que se entregam os grupos mercantilistas dominantes nos países bem desenvolvidos e industrializados do mundo”.

Elas simbolizam uma massa (que era grande) que estava cansada de passar fome, de ser a “paria social” (mesmo sendo forte), e apesar de participarem da revolução, não demonstraram apresso pelo poder, se fosse, elas poderiam governar (de fato) durante a “era de Scar”. Também nunca demonstraram a intenção de perseguir ou segregar seus inimigos. É interessante perceber que durante o reinado de Mufasa as hienas eram segregadas, porém, durante o reinado de Scar (em tese com participação das hienas), os leões não sofrem represálias (todos convivem juntos).

Essa demonstração de desapego ao poder e uma identidade de comunidade pode ser notada quando elas são tratadas abertamente como inimigas por Scar (quando esse as culpa pela morte de Mufasa) agem como inimigas contra ele, ou seja, elas estavam desapegadas de algum aparato ideológico. Em suma... apenas buscam “não passar fome” no reino da abundância. É... hakuna matata, para elas, é pura utopia.

Por fim, talvez o que mais redima as hienas seja o Rei Leão II. Nele, elas não aparecem, o reino é dividido entre “o reino de simba” e os “exilados de Scar”, porém, todos são leões. Na história dizem que as hienas fugiram. Mas, para onde? O fato de fugir, ou seja, o êxodo territorial, é algo muito comum em sociedades oprimidas. Foi assim na Ucrânia (e países do cortina de ferro) durante o regime soviético, foi assim com os judeus na Alemanha nazista, com os negros nos Estados Unidos (principalmente no sul), etc.

A forma como as hienas (ahhh sim, por sinal, o nome das três principais é: Shenzi, Banzai e Ed), lembra muito uma frase dita por Malcolm X: “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O real mundo paralelo do futebol


“Nas quatro linhas tudo pode”, “o que acontece em campo, fica em campo”. Essas são frases comuns no meio do futebol, que talvez mostre a face de um mundo paralelo no principal esporte nacional. Reconheço (falarei com mais calma em alguns parágrafos abaixo) as “fraturas” sociais que existem na humanidade. Porém, no futebol elas ficam expostas da forma mais nua e crua possível.

Usando o Brasil, para não me alongar muito, como exemplo. O racismo existe? Sim (desculpa Ali Kamel, mas existe, cara). No entanto, convenhamos, a maioria das pessoas no mínimo ficariam constrangidas em chamar em público um negro de macaco. Porém, no futebol, não. Numa partida é bem comum após um jogador (negro) fazer algo errado (ou simplesmente estar em campo), ouvimos coisas do tipo: “vai, macaco”, “tinha que ser negro, viu”, “vai carvão”, etc...etc...

Homofobia é outro tabu (no Brasil, até mais grave que o racismo). Apesar de ainda pequeno (proporcionalmente), homossexuais estão presentes em nossa sociedade, sejam eles professores, políticos e até lutadores de MMA. Todavia, não no futebol. Nele, apesar de todo mundo saber da existência, é melhor fingir que não: “'viado' é o jogador do outro time. No meu mesmo, não”. Isso sem contar a homofobia aberta de todas as torcidas. Até porque, “'viado' (ou 'bambi') é o torcedor do outro time. No meu, não tem disso”. Inclusive já falei um pouco sobre isso no “a inabalável cultura da repulsa ao 24”. Sobre o tema, saindo rapidinho do Brasil, vale a pena pesquisar sobre a história de Fashanu (primeiro jogador famoso a assumir a homoafetividade).

Outro ponto da “sociedade alternativa” é a participação (?!) da mulher. Apesar de “furos” (e falta de igualdade) elas estão presente em diversos meios “masculinos”. No entanto, claro, no futebol isso ainda é visto com estranheza. Ok. Talvez o caminho não seja um “futebol misto” (times que tenham homens e mulheres), beleza, assim como é em vários esportes a divisão é totalmente compreensível. Mas, por que “só” o homem entende de futebol? Por que o número de mulheres no estádio é ínfimo se comparado ao dos homens?. Ou pior, por que quando é uma bandeira (ou auxiliar), por exemplo, ela está sujeita a todo o tipo de machismo baixo, onde, o mais leve (sim, o mais leve) é: “deveria estar na cozinha lá de casa”. E isso tudo é visto apenas como “uma saudável provocação”?. Sobre o tema indico esse texto.

A violência também entra na questão. É claro que o Brasil é um “país violento” (e bonito por natureza). Porém, sempre causará uma certa reação você ver alguém saindo no tapa com outro, ou uma briga generalizada. No futebol, não. No máximo você vai dizer: “ahhh é só briga de torcida organizada”. A violência é acolhida como algo “normal” e do “dia-dia” do jogo.

Tá!. Eu sei. O amigx que leu até o momento o texto deve estar pensando: “óóó... como se isso só acontece-se no futebol”. Eu sei... eu sei... Todas as coisas citadas acontecem no dia-dia e fazem parte (infelizmente) da sociedade. Mas, como disse, no “meio do futebol” o negócio é tratado como natural. Passam de, na pior das hipóteses, uma “forma errada de se expressar”, para “ahhh... aqui eu posso”.

É evidente que o futebol não traz um mundo paralelo, pelo contrário, ele traz o mundo real. Ele expõe, de forma crua (e cruel), algumas mazelas da nossa sociedade. Mas, quando se estabelece a idea de um “espaço paralelo”, quebra uma noção bem pós-positiva de “convívio social”:

Para Durkeim mesmo as ações mais individuais tem a característica de ser uma pressão social sobre o individuo. As regras de convívio social acabam por algemar as mãos deste. A estrutura da sociedade molda o homem, determina a politica, a cultura, o lazer... Na sociologia do autor, a sociedade é tão forte que a individualidade desaparece. Então temos o papel da educação; forjar o ser social, lhe incutindo regras que, aos poucos, e de forma resignada, são interiorizadas.
 

Ou seja, se no “futebol tudo pode”. Eu posso “falar para o mundo” que para mim “negro é macaco”, o futebol me dá essa liberdade, sem represálias. Se não gosto da conviver com gay. Legal! O futebol me permite isso. E mulher... Em alguns espaços elas “mandam em mim”, no futebol não há esse risco... E claro, preciso dar uns tapas em alguém sem precisar arrumar um motivo aparente? O futebol tá lá me permitindo isso.

É evidente que o problema não está no esporte em si. E sim, em nossa sociedade. Mas, esse lado diria terapêutico do futebol (de forma negativa), apenas enfraquece um meio que, tanto serve de integração social.

Isso é o momento do futebol. Estou indo, mas posso voltar. 
Joel Santana.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A resignação Ideologica-Social II: A "elitização" dos estádios


Primeiro é sempre bom deixar claro que sou totalmente contra a higienização dos estádios (indico esse texto: clique aqui) e o modelo “teatral” de torcida (indico esse: clique aqui). Ingressos a preços de R$ 100, R$ 200 (os mais baratos) são uma afronta ao esporte mais popular do país. Costumo dizer que a gente não deve fazer com que o futebol se torne um espetáculo de teatro. E sim, o contrário, que o teatro fique mais popular e acessível. 

Dito isso, vamos ao que me incomoda e ao motivo do post, que são (para variar) pessoas que querem ensinar o pobre a ser pobre, ou então, que glamourizam ou teorizam, com um cafajestimo intelectual nauseante, no conforto do seu lar (ou cabine), o sofrimento alheio. Algo que, inclusive, já falei em outro post (clique aqui

Mas, o assunto é futebol. Particularmente me deixa extremamente irritado quando alguns hipócritas falam sobre as novas Arenas e a modernização do futebol brasileiro como absurdo. Já li (e ouvi) coisas do tipo:


“Esses estádios acabaram com a alma do futebol”



“O Fosso era coisa mais linda do mundo”, (Rivellino).



“O torcedor agora leva o Ipad para o campo e não o Rádio de Pilha. Isso é triste". 



“Estão querendo colocar o torcedor educado e tirar o desdentado dos estádios”. (João Canalha)


Entre outras coisas que você pode ver nesse link; http://www.youtube.com/watch?v=D9tqYSjZbUg (no Cartão Verde do dia 26/11. Do minuto 40 ao 43)

Também nesse programa, citaram um dos maiores absurdos que li ultimamente, nojento é pouco. Esse aqui> http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,business-fc-,1095077,0.htm

Que tem absurdos do tipo:


“Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”.



“Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”.



“Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. 

Pausa pra vomitar... 


Voltando...

Pronto, depois de tanto absurdo o que falar? Será que realmente alguns desses “gênios” foram mesmo a um Estádio de futebol?

O fosso é importante? mas, será que eles realmente sabem o risco que ele pode trazer> http://esportes.terra.com.br/futebol/libertadores2007/interna/0,,OI1605247-EI8224,00.html além de, diferente das "maldosas" Arenas, como ele (o fosso) deixa o "povo" distante dos atletas.

Será que para eles, mesmo o Ipad, pod, pud, etc. sendo algo que representa uma evolução natural da tecnologia deve ser restrito apenas aos ricos? Isso me lembra daquela frase: “Pra que pobre com celular. Pobre precisa disso não. Dois gritos pela janela já resolve o problema”. E os educados? Espera... espera... Quer dizer que o pobre, o “povão” no estádio é (só) aquele que fala palavrão, xinga a mãe do juiz e manda o atacante ruim do seu time “tomar no cu” (Ei! Felipe Azevedo, vai tomar no cu!!”), isso sem contar no “desdentado”, que até entendi o que ele quis falar, mas, não pode-se negar o vil estereótipo. Vindo de uma família pobre e convivendo com eles até hoje (óbvio), não me deixa lá muito feliz ver essas pessoas sendo tratadas de forma estereotipada e animalesca. Macunaíma morreu? Acho que não. E o Jeca Tatu? Ahhh é... Esse é o representante das torcidas do interior.

Mas, vamos ao caso Arruda. O Estádio realmente é bem legal, o clima do jogo foi maravilhoso, motivo: ERA UM JOGO DECISIVO. Ele deveria assistir um Santa Cruz x Araripina pelo campeonato pernambucano e ver a diferença. E mesmo assim, falar que: “Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”, é outra desonestidade (e mentira!. Clique aqui) sem tamanho. Sabe o que isso me lembra: “ahhh gente... ele é pobre, já sofreu muito na vida, vai entender” ou “O nordestino é antes de tudo um forte”, estereótipos e mais estereótipos que nos são jogados goela abaixo. Não tem aquele ditado: "seja feliz com o que Deus lhe deu e dê o que restou para mim", bem comum entre Pastor sem-vergonha. Então, segue quase a mesma lógica. 

Voltando aos estádios... Normalmente costumo ir a Ilha do Retiro que, assim como o Arruda, é de uma falta de organização incrível. Não há nada pior do que ir aos banheiros imundos de lá. Não há nada que me cause mais constrangimento do que ver torcedores em cadeiras de rodas sendo obrigados a ocupar espaços torpes e praticamente sem visão pro campo (isso melhorou após a publicação desse texto), sem falar de senhores de idade subindo arquibancadas (de cimento) mal planejadas. Mas, claro, para os torcedores de cabine isso faz parte do show. É o famoso “no cu dos outros é refresco”. Até porque, muitos dos jornalistas que falam isso, se não tiverem ar-condicionado na sua cabine vão reclamar, né?
Mas, tem mais coisas. E talvez, o maior absurdo de todos (é, dá para piorar): “Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”. Isso só me lembra essas cenas no, adivinha, Arruda!> http://www.youtube.com/watch?v=MDvFl6G1iks


Só há povão ali. Porém, não vejo o clima de festa. Sei lá... Mas, se nossos "gênios" dizem que estádio é feito pra caber e que: “Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. Quem sou eu pra discutir né?. Engraçado... É o Arruda. Tá cabendo, mas, não vejo o povão sorrindo. (Ver vídeo desse jogo: http://www.youtube.com/watch?v=V8iBXhDXKVw)

Mas, e as "maldosas" Arenas? Então... Dia desses fui na Arena Pernambuco. Péssimo para chegar. Muito ruim mesmo. No entanto, lá dentro o clima de torcida, o “povão” era o mesmo, sabe por que? Porque o preço do Ingresso era aceitável. Fui e voltei de metrô (e ônibus) no meio do povão (não, não vi nenhum desses "gênios" do saudosismo lá), e, era impressionante como as pessoas gostaram de sentir um pouco de conforto. Era interessante ouvir coisas do tipo: "bem que Ilha do Retiro poderia ser assim", ou "Tomara que façam a Arena na Ilha logo, é massa aqui, mas, é longe". Sabe por que? Questão de dignidade. O problema não está no local, apesar de que, admito, falta "alma" a boa parte dessas Arenas. São praticamente "não-lugares" (ver aqui), em geral, óbvio, prefiro estádios com "alma. Mas, apesar disso, não tentem criar teorias que, com um ar de “progressista”, são segregadoras. Aquela coisa meio: "Ahhh deixa o pobre lá. Mas, bem longe de mim, sabe".

A lotação e outras coisas que citam com glamour não fazem parte da "alma do povão", ninguém gosta de ser tratado como cachorro (inclusive, esse termo é errado. Tipo, é certo tratar um cachorro "como cachorro" (no sentido de mal)? mas, enfim...) voltando ao tema... É claro que figuras "peculiares" (que você encontrava na geral), estão no povão, e que elas são ótimas para o jogo. No entanto, que essas figuras sejam algo natural, que tenham sua dignidade respeitada e que não sejam estereotipadas. (No jogo da Arena mesmo tinha um cara fantasiado de Leão ao meu lado). Não tentem querer ensinar ao povão a forma dele se portar. Tipo: "Não cara, você é pobre. Vá para o estádio de chinelo de dedo, de preferência num metrô lotado e volte bêbado pra casa. Ahhh, mas, se quiser ir com uma fantasia, tá beleza também". 

O grande problema está nos preços, que, mesmo com as Arenas, no geral, não tiveram um grande aumento (salve exceções). O problema está no mercado "selvagem", que, mesmo sem as arenas, já existia. Ou será que foi o conforto dos novos estádios que trouxe o capitalismo selvagem?. Mas, isso não significa que, como diria Zé Ramalho, o povo queira ser tratado (ou ter uma vida) como gado, por mais que tentem criar esse clima de resignação.

O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual.
Joãozinho Trinta