sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando Bosco foi o melhor goleiro do mundo...


Meus pais não gostam de futebol. Por isso, não nasci numa casa com o “convívio social” propenso a gostar do esporte. Mas, é aquilo, sempre tem um tio (no meu caso dois) que leva você para o “mau” caminho. Nesse caso, ser torcedor do Sport (admitam, poderia ser pior).

No entanto, o assunto não é como me tornei, e sim, como era, quando criança, ser torcedor. Comecei a gostar do esporte (e do Sport) lá pelos anos de 98, 99... E nessa época, até por ser goleiro no mirim-a do meu colégio, era fã do Bosco (ex-goleiro do Sport). Para mim ele era o maior goleiro do mundo (apesar de que, de fato, ele era um dos melhores do país). Eu nunca tinha ouvido falar no Schmeichel (dinamarquês do Manchester United, em tese, o melhor naqueles anos), no Oliver Kahn que já se destacava no Bayern, Pagliuca ou até mesmo no Taffarel, esse último, só na Copa de 1998. Na minha “inocência”, o maior do mundo era o Bosco (e aí de quem duvidasse), vibrava com suas defesas e quando fazia as minhas, claro, não titubeava em gritar “Defende Bosco!!!”. Sim, eu queria ser ele.

O tempo passou, comecei a gostar e acompanhar mais o futebol nacional, estrangeiro, história, jogos antigos, etc. Enfim, fui me “especializando” no tema. E hoje, óbvio, rio da minha antiga ingenuidade. E apesar de ser muito fã do Magrão (atual goleiro do Sport), não diria que ele é o “melhor do mundo” (mesmo sendo melhor do que foi o Bosco e um dos melhores do país).

Porém, aí que está a questão...Vivemos no “mundo da informação”, hoje é bem mais fácil ter acesso a notícias de times e jogadores de todos lugares do mundo, assistir diversos campeonatos, pesquisar números/estatísticas, história, etc. E isso está criando uma das piores pragas que existe: o “especialista de futebol", arrogante. E o que é isso? É aquela pessoa que “não é clubista” (e se orgulha disso), que gosta do futebol pelo esporte em si (não "torce" para ninguém), acompanha de tudo e entende do riscado (ou acha que entende). Até aí, ótimo, nada contra esse tipo de espectador. Mas o problema começa quando ela acha que o esporte lhe pertence (é quase um elitismo “intelectual”) e passa a ignorar a “inocência” de quem apenas (e tem todo direito disso) acompanha seu time.

Essa pessoa é aquela que fará cara feia quando um torcedor do Santa Cruz (e que se preocupa apenas com o tricolor) falar que o Caça-Rato é o melhor jogador do time (ou do Brasil). “Você não entende de futebol. Os números mostram que André Dias é disparado um jogador melhor”, dirá nosso idiota da objetividade. Se um “torcedor comum” falar que o jogador do seu time (no Brasil) é melhor que o algum jogador do Barcelona, nosso “gênio”, provavelmente infartará... falará que não se compara o nível, que o futebol aqui é uma várzea, que o futebol europeu é o melhor do mundo, etc. Ele está errado? em tese, não. Mas, sua prepotência, sim. Sua tentativa de contrapor o lúdico com o lógico de forma arrogante, é patética.

O mundo do futebol também é lúdico e não objetivo. O do meu time é melhor porque é do meu time e pronto. Eu não me importo com números, nível, etc. não acompanho futebol pelo esporte em geral, acompanho porque gosto do meu time, simples. Ninguém pode ser culpado por não entender a fundo de algo (ser “especialista”). É óbvio que os Beatles são melhores que o Molejão (ou não), mas, eu posso dizer que prefiro o Molejão pelo simples fato de ser o que escuto. Não pretendo ser um “perito” em música, apenas, ouvir o que gosto como uma grande “brincadeira de criança”.

Então, se pudesse voltar no tempo e falar comigo mesmo na época em comecei a gostar de futebol. Além de provavelmente provocar um furacão em Tóquio (ver) e dizer que eu deveria pedir a Márcia em namoro. Me daria um abraço e apenas confirmaria que realmente...O Bosco é o maior goleiro do mundo.


Eu fico com a beleza da resposta das crianças / É a vida, é bonita e é bonita. Gonzaguinha.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sobre reis, hienas e opressão


Mesmo sendo tratado como algo “inocente e para crianças” o filme “O Rei Leão” traz um discurso político-ideológico bem elaborado. Se fosse crítico de cinema Karl Marx talvez o definiria assim:

Somente se levarmos em conta o advento e a natureza do Estado moderno (poder soberano aplicado sobre toda uma nação), poderemos compreender a função implícita ou explícita da ideologia, sua tentativa para fazer com que o ponto de vista particular da classe que exerce a dominação (política) apareça para todos os sujeitos sociais e políticos como universal, e não como interesse particular de uma classe determinada.


Para não me alongar produzindo um texto que fale sobre todo o contexto político do filme, deixo 3 links (clique nos títulos) que tratam sobre o tema:





Dito isso, vou a parte que interessa, que é, digamos... ...redimir as hienas do perfil “maligno” do qual foram retratadas na produção. E mostrar como dentro do contexto social do reino elas foram as maiores oprimidas.

No início do filme, o monarca absolutista, Mufasa, mostra ao príncipe Simba todas as suas “posses” (o reino), porém, deixando claro que ele evite o lugar sombrio (cemitério dos elefantes), onde de forma reclusa vivem as hienas. Algo que para muitos (como é dito no texto “Tirania de Mufasa”) pode ser visto como um Apartheid.

Além de, a princípio sem muita justificativa, não viverem no melhor local do reino, as hienas passam por outro (e o mais sério problema): a fome (além de outras injustiças), que é bem retratado no trecho mais simbólico do filme (caso o vídeo não abra abaixo, clique aqui):



No vídeo Scar deixa bem claro: “Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!". Pouco antes, as hienas reclamam de estarem “na rabeira da cadeia alimentar”, o que não tem sentido algum por elas serem carnívoras. Ou seja, já que a definição biológica não explica, talvez Marx explique, dizendo que: "O Estado (O Rei Leão) aparece para representar os interesses da classe dominante e cria, para isso, inúmeros aparatos para manter a estrutura da produção. Esses aparatos são nomeados de infraestrutura e condicionam o desenvolvimento de ideologias e normas reguladoras, sejam elas políticas, religiosas, culturais ou econômicas, para assegurar os interesses dos proprietários dos meios de produção".

Mas por que as Hienas? A explicação mais óbvia para isso é que elas são vistas como um “competidor natural dos leões”. Ambos são os carnívoros de maior destaque do filme (apesar de existirem outros). Dá para subentender isso ao ver que durante o reinado de Mufasa (e posteriormente de Simba), pouco se fala sobre a “obrigação da caça” dos leões, eles vivem em perfeita tranquilidade, sossego e paz. Talvez porque, possuem comida em abundância e com fácil acesso (o texto A nobre família leão e as hienas retrata isso de forma interessante).

No entanto, quando as hienas voltam ao reino (através de Scar) a obrigação da caça passa a existir para os leões (no caso, as leoas). Ou seja, a imagem que fica é que, numa espécie de “darwnismo social” os leões (através do seu rei) veem a necessidade de segregar as hienas para, em tese, manter seu “status” e a boa vida. Ou seja, vai além até dos limites do capitalismo (da livre concorrência) e passa a ser tirania e absolutismo puro: “o reino pertencerá a você, Simba”.

A aproximação das hienas a Scar é mais do que justificada quando ele promete (como pode ser visto no vídeo acima):

“Fiquem comigo. E jamais sentiram fome outras vez!!!”

“Injustiças farei com que parem”


"Uma nova era onde leões e hienas conviveram juntos"


Convenhamos que quando se está segregado, com fome e “abaixo da cadeia alimentar”, qualquer promessa ou o mínimo de interesse por sua causa será bem vinda. Vale lembrar que antes de propor a união (o que, em tese, traria a ideia de verticalidade), Scar leva comida para as hienas.

Seria possível dizer que elas pensavam (a princípio) em uma revolução plena que: “Conduziria à ditadura do proletariado, ou seja, o proletariado, em luta contra a burguesia e através da revolução, transformar-se-ia em classe dominante”. Isso pode ser visto quando elas clamam: “Morram os reis!” (sendo posteriormente repreendidas por Scar). Ahhh sim. No vídeo, o fato delas marcharem como fileiras sovietícas é apenas ilustrativo, certo? (risos)...

Porém essa revolução a princípio vitoriosa quando elas derrotam o rei (segregador) e voltam a conviver com todos os animais do reino (no início do “governo Scar”), passa, infelizmente para hienas, a não surtir tanto efeito, já que elas saem de uma monarquia absolutista para uma espécie de ditadura (não do proletáriado). Digamos que não há a ruptura necessária. Tanto que um dado momento, quando voltam a passar fome, as hienas contestam o governo do “Rei Scar” o comparando com o antigo rei.

Alguns podem colocar a culpa da debandada dos outros animais e da pobreza do reino, durante o reinado de Scar, na incapacidade das hienas. Algo que não tem muito sentido. Primeiro: Qual a culpa das hienas na falta de água ou de plantas? Quando viviam no sombrio e isolado cemitério dos elefantes elas não faziam por opção e sim porque eram obrigadas pelo rei Mufasa.

Outro ponto importante é que quando lá vivam elas já possuíam uma grande população, então, mesmo passando fome, sobreviviam e se reproduziam, ou seja, subentendesse que se alimentavam (mesmo que pouco), sem afetar ou fazer com houvesse debandada. Há ainda a teoria que elas comiam a si próprias, difícil acreditar, mas, se fosse verdade, apenas justificaria mais ainda sua revolta.

Vale lembrar que no início do filme Mufasa fala para Simba sobre a importância de “manter o equilíbrio do reino”. Mas, como pode-se manter o equilíbrio se uma parte importante do nicho é segregada?. Como diria Josué de Castro: “O que falta é vontade política para mobilizar recursos a favor dos que têm fome”.

As hienas não são nada mais do que a resposta de quem está marginalizado socialmente. Mais uma vez citando Josué de Castro: “A verdade é que os povos chamados subdesenvolvidos já se aperceberam da profunda contradição que existe entre os preceitos morais de igualdade, fraternidade e humanitarismo, pregados e defendidos pelos teorizantes da civilização ocidental e a crua e cínica disputa pelo lucro a que se entregam os grupos mercantilistas dominantes nos países bem desenvolvidos e industrializados do mundo”.

Elas simbolizam uma massa (que era grande) que estava cansada de passar fome, de ser a “paria social” (mesmo sendo forte), e apesar de participarem da revolução, não demonstraram apresso pelo poder, se fosse, elas poderiam governar (de fato) durante a “era de Scar”. Também nunca demonstraram a intenção de perseguir ou segregar seus inimigos. É interessante perceber que durante o reinado de Mufasa as hienas eram segregadas, porém, durante o reinado de Scar (em tese com participação das hienas), os leões não sofrem represálias (todos convivem juntos).

Essa demonstração de desapego ao poder e uma identidade de comunidade pode ser notada quando elas são tratadas abertamente como inimigas por Scar (quando esse as culpa pela morte de Mufasa) agem como inimigas contra ele, ou seja, elas estavam desapegadas de algum aparato ideológico. Em suma... apenas buscam “não passar fome” no reino da abundância. É... hakuna matata, para elas, é pura utopia.

Por fim, talvez o que mais redima as hienas seja o Rei Leão II. Nele, elas não aparecem, o reino é dividido entre “o reino de simba” e os “exilados de Scar”, porém, todos são leões. Na história dizem que as hienas fugiram. Mas, para onde? O fato de fugir, ou seja, o êxodo territorial, é algo muito comum em sociedades oprimidas. Foi assim na Ucrânia (e países do cortina de ferro) durante o regime soviético, foi assim com os judeus na Alemanha nazista, com os negros nos Estados Unidos (principalmente no sul), etc.

A forma como as hienas (ahhh sim, por sinal, o nome das três principais é: Shenzi, Banzai e Ed), lembra muito uma frase dita por Malcolm X: “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O real mundo paralelo do futebol


“Nas quatro linhas tudo pode”, “o que acontece em campo, fica em campo”. Essas são frases comuns no meio do futebol, que talvez mostre a face de um mundo paralelo no principal esporte nacional. Reconheço (falarei com mais calma em alguns parágrafos abaixo) as “fraturas” sociais que existem na humanidade. Porém, no futebol elas ficam expostas da forma mais nua e crua possível.

Usando o Brasil, para não me alongar muito, como exemplo. O racismo existe? Sim (desculpa Ali Kamel, mas existe, cara). No entanto, convenhamos, a maioria das pessoas no mínimo ficariam constrangidas em chamar em público um negro de macaco. Porém, no futebol, não. Numa partida é bem comum após um jogador (negro) fazer algo errado (ou simplesmente estar em campo), ouvimos coisas do tipo: “vai, macaco”, “tinha que ser negro, viu”, “vai carvão”, etc...etc...

Homofobia é outro tabu (no Brasil, até mais grave que o racismo). Apesar de ainda pequeno (proporcionalmente), homossexuais estão presentes em nossa sociedade, sejam eles professores, políticos e até lutadores de MMA. Todavia, não no futebol. Nele, apesar de todo mundo saber da existência, é melhor fingir que não: “'viado' é o jogador do outro time. No meu mesmo, não”. Isso sem contar a homofobia aberta de todas as torcidas. Até porque, “'viado' (ou 'bambi') é o torcedor do outro time. No meu, não tem disso”. Inclusive já falei um pouco sobre isso no “a inabalável cultura da repulsa ao 24”. Sobre o tema, saindo rapidinho do Brasil, vale a pena pesquisar sobre a história de Fashanu (primeiro jogador famoso a assumir a homoafetividade).

Outro ponto da “sociedade alternativa” é a participação (?!) da mulher. Apesar de “furos” (e falta de igualdade) elas estão presente em diversos meios “masculinos”. No entanto, claro, no futebol isso ainda é visto com estranheza. Ok. Talvez o caminho não seja um “futebol misto” (times que tenham homens e mulheres), beleza, assim como é em vários esportes a divisão é totalmente compreensível. Mas, por que “só” o homem entende de futebol? Por que o número de mulheres no estádio é ínfimo se comparado ao dos homens?. Ou pior, por que quando é uma bandeira (ou auxiliar), por exemplo, ela está sujeita a todo o tipo de machismo baixo, onde, o mais leve (sim, o mais leve) é: “deveria estar na cozinha lá de casa”. E isso tudo é visto apenas como “uma saudável provocação”?. Sobre o tema indico esse texto.

A violência também entra na questão. É claro que o Brasil é um “país violento” (e bonito por natureza). Porém, sempre causará uma certa reação você ver alguém saindo no tapa com outro, ou uma briga generalizada. No futebol, não. No máximo você vai dizer: “ahhh é só briga de torcida organizada”. A violência é acolhida como algo “normal” e do “dia-dia” do jogo.

Tá!. Eu sei. O amigx que leu até o momento o texto deve estar pensando: “óóó... como se isso só acontece-se no futebol”. Eu sei... eu sei... Todas as coisas citadas acontecem no dia-dia e fazem parte (infelizmente) da sociedade. Mas, como disse, no “meio do futebol” o negócio é tratado como natural. Passam de, na pior das hipóteses, uma “forma errada de se expressar”, para “ahhh... aqui eu posso”.

É evidente que o futebol não traz um mundo paralelo, pelo contrário, ele traz o mundo real. Ele expõe, de forma crua (e cruel), algumas mazelas da nossa sociedade. Mas, quando se estabelece a idea de um “espaço paralelo”, quebra uma noção bem pós-positiva de “convívio social”:

Para Durkeim mesmo as ações mais individuais tem a característica de ser uma pressão social sobre o individuo. As regras de convívio social acabam por algemar as mãos deste. A estrutura da sociedade molda o homem, determina a politica, a cultura, o lazer... Na sociologia do autor, a sociedade é tão forte que a individualidade desaparece. Então temos o papel da educação; forjar o ser social, lhe incutindo regras que, aos poucos, e de forma resignada, são interiorizadas.
 

Ou seja, se no “futebol tudo pode”. Eu posso “falar para o mundo” que para mim “negro é macaco”, o futebol me dá essa liberdade, sem represálias. Se não gosto da conviver com gay. Legal! O futebol me permite isso. E mulher... Em alguns espaços elas “mandam em mim”, no futebol não há esse risco... E claro, preciso dar uns tapas em alguém sem precisar arrumar um motivo aparente? O futebol tá lá me permitindo isso.

É evidente que o problema não está no esporte em si. E sim, em nossa sociedade. Mas, esse lado diria terapêutico do futebol (de forma negativa), apenas enfraquece um meio que, tanto serve de integração social.

Isso é o momento do futebol. Estou indo, mas posso voltar. 
Joel Santana.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A resignação Ideologica-Social II: A "elitização" dos estádios


Primeiro é sempre bom deixar claro que sou totalmente contra a higienização dos estádios (indico esse texto: clique aqui) e o modelo “teatral” de torcida (indico esse: clique aqui). Ingressos a preços de R$ 100, R$ 200 (os mais baratos) são uma afronta ao esporte mais popular do país. Costumo dizer que a gente não deve fazer com que o futebol se torne um espetáculo de teatro. E sim, o contrário, que o teatro fique mais popular e acessível. 

Dito isso, vamos ao que me incomoda e ao motivo do post, que são (para variar) pessoas que querem ensinar o pobre a ser pobre, ou então, que glamourizam ou teorizam, com um cafajestimo intelectual nauseante, no conforto do seu lar (ou cabine), o sofrimento alheio. Algo que, inclusive, já falei em outro post (clique aqui

Mas, o assunto é futebol. Particularmente me deixa extremamente irritado quando alguns hipócritas falam sobre as novas Arenas e a modernização do futebol brasileiro como absurdo. Já li (e ouvi) coisas do tipo:


“Esses estádios acabaram com a alma do futebol”



“O Fosso era coisa mais linda do mundo”, (Rivellino).



“O torcedor agora leva o Ipad para o campo e não o Rádio de Pilha. Isso é triste". 



“Estão querendo colocar o torcedor educado e tirar o desdentado dos estádios”. (João Canalha)


Entre outras coisas que você pode ver nesse link; http://www.youtube.com/watch?v=D9tqYSjZbUg (no Cartão Verde do dia 26/11. Do minuto 40 ao 43)

Também nesse programa, citaram um dos maiores absurdos que li ultimamente, nojento é pouco. Esse aqui> http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,business-fc-,1095077,0.htm

Que tem absurdos do tipo:


“Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”.



“Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”.



“Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. 

Pausa pra vomitar... 


Voltando...

Pronto, depois de tanto absurdo o que falar? Será que realmente alguns desses “gênios” foram mesmo a um Estádio de futebol?

O fosso é importante? mas, será que eles realmente sabem o risco que ele pode trazer> http://esportes.terra.com.br/futebol/libertadores2007/interna/0,,OI1605247-EI8224,00.html além de, diferente das "maldosas" Arenas, como ele (o fosso) deixa o "povo" distante dos atletas.

Será que para eles, mesmo o Ipad, pod, pud, etc. sendo algo que representa uma evolução natural da tecnologia deve ser restrito apenas aos ricos? Isso me lembra daquela frase: “Pra que pobre com celular. Pobre precisa disso não. Dois gritos pela janela já resolve o problema”. E os educados? Espera... espera... Quer dizer que o pobre, o “povão” no estádio é (só) aquele que fala palavrão, xinga a mãe do juiz e manda o atacante ruim do seu time “tomar no cu” (Ei! Felipe Azevedo, vai tomar no cu!!”), isso sem contar no “desdentado”, que até entendi o que ele quis falar, mas, não pode-se negar o vil estereótipo. Vindo de uma família pobre e convivendo com eles até hoje (óbvio), não me deixa lá muito feliz ver essas pessoas sendo tratadas de forma estereotipada e animalesca. Macunaíma morreu? Acho que não. E o Jeca Tatu? Ahhh é... Esse é o representante das torcidas do interior.

Mas, vamos ao caso Arruda. O Estádio realmente é bem legal, o clima do jogo foi maravilhoso, motivo: ERA UM JOGO DECISIVO. Ele deveria assistir um Santa Cruz x Araripina pelo campeonato pernambucano e ver a diferença. E mesmo assim, falar que: “Só que ninguém reclamava das inconfortáveis instalações do glorioso Arruda, do Recife”, é outra desonestidade (e mentira!. Clique aqui) sem tamanho. Sabe o que isso me lembra: “ahhh gente... ele é pobre, já sofreu muito na vida, vai entender” ou “O nordestino é antes de tudo um forte”, estereótipos e mais estereótipos que nos são jogados goela abaixo. Não tem aquele ditado: "seja feliz com o que Deus lhe deu e dê o que restou para mim", bem comum entre Pastor sem-vergonha. Então, segue quase a mesma lógica. 

Voltando aos estádios... Normalmente costumo ir a Ilha do Retiro que, assim como o Arruda, é de uma falta de organização incrível. Não há nada pior do que ir aos banheiros imundos de lá. Não há nada que me cause mais constrangimento do que ver torcedores em cadeiras de rodas sendo obrigados a ocupar espaços torpes e praticamente sem visão pro campo (isso melhorou após a publicação desse texto), sem falar de senhores de idade subindo arquibancadas (de cimento) mal planejadas. Mas, claro, para os torcedores de cabine isso faz parte do show. É o famoso “no cu dos outros é refresco”. Até porque, muitos dos jornalistas que falam isso, se não tiverem ar-condicionado na sua cabine vão reclamar, né?
Mas, tem mais coisas. E talvez, o maior absurdo de todos (é, dá para piorar): “Abrigar talvez seja um termo não adequado. Estádio não era feito para abrigar, mas para caber”. Isso só me lembra essas cenas no, adivinha, Arruda!> http://www.youtube.com/watch?v=MDvFl6G1iks


Só há povão ali. Porém, não vejo o clima de festa. Sei lá... Mas, se nossos "gênios" dizem que estádio é feito pra caber e que: “Quem ia ao estádio sabia que poderia ter que se sentar no concreto com o risco de ficar um pouco espremido, debaixo de sol, chuva ou frio. Mas ninguém se importava”. Quem sou eu pra discutir né?. Engraçado... É o Arruda. Tá cabendo, mas, não vejo o povão sorrindo. (Ver vídeo desse jogo: http://www.youtube.com/watch?v=V8iBXhDXKVw)

Mas, e as "maldosas" Arenas? Então... Dia desses fui na Arena Pernambuco. Péssimo para chegar. Muito ruim mesmo. No entanto, lá dentro o clima de torcida, o “povão” era o mesmo, sabe por que? Porque o preço do Ingresso era aceitável. Fui e voltei de metrô (e ônibus) no meio do povão (não, não vi nenhum desses "gênios" do saudosismo lá), e, era impressionante como as pessoas gostaram de sentir um pouco de conforto. Era interessante ouvir coisas do tipo: "bem que Ilha do Retiro poderia ser assim", ou "Tomara que façam a Arena na Ilha logo, é massa aqui, mas, é longe". Sabe por que? Questão de dignidade. O problema não está no local, apesar de que, admito, falta "alma" a boa parte dessas Arenas. São praticamente "não-lugares" (ver aqui), em geral, óbvio, prefiro estádios com "alma. Mas, apesar disso, não tentem criar teorias que, com um ar de “progressista”, são segregadoras. Aquela coisa meio: "Ahhh deixa o pobre lá. Mas, bem longe de mim, sabe".

A lotação e outras coisas que citam com glamour não fazem parte da "alma do povão", ninguém gosta de ser tratado como cachorro (inclusive, esse termo é errado. Tipo, é certo tratar um cachorro "como cachorro" (no sentido de mal)? mas, enfim...) voltando ao tema... É claro que figuras "peculiares" (que você encontrava na geral), estão no povão, e que elas são ótimas para o jogo. No entanto, que essas figuras sejam algo natural, que tenham sua dignidade respeitada e que não sejam estereotipadas. (No jogo da Arena mesmo tinha um cara fantasiado de Leão ao meu lado). Não tentem querer ensinar ao povão a forma dele se portar. Tipo: "Não cara, você é pobre. Vá para o estádio de chinelo de dedo, de preferência num metrô lotado e volte bêbado pra casa. Ahhh, mas, se quiser ir com uma fantasia, tá beleza também". 

O grande problema está nos preços, que, mesmo com as Arenas, no geral, não tiveram um grande aumento (salve exceções). O problema está no mercado "selvagem", que, mesmo sem as arenas, já existia. Ou será que foi o conforto dos novos estádios que trouxe o capitalismo selvagem?. Mas, isso não significa que, como diria Zé Ramalho, o povo queira ser tratado (ou ter uma vida) como gado, por mais que tentem criar esse clima de resignação.

O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual.
Joãozinho Trinta

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A capacidade do direito


Mês passado tive o prazer de ter um texto publicado pelo sociedade racionalista (ver aqui). 

Diferente daqui, lá tive vários comentários em relação ao texto (principalmente pelo facebook), respondi uns, e no mais, busquei observar os argumentos, o que me trouxe a ideia de fazer esse post (estou meio sem ideias, admito).

O tema seria até meio óbvio se não fosse tão recorrente o “erro” que é o de confundir direito (nesse caso, a opinião) com a capacidade de (nesse caso, de opinar).

Vi muitas falando “mas não podemos acabar com o direito das pessoas de opinarem”, “isso é censura”, etc. Não, não é. Todas as pessoas tem capacidade de fazer o que bem entenderem (dentro de suas limitações), eu posso odiar seja quem for, posso matar, estuprar, pular de uma ponte ou torcer pelo Palmeiras. É uma capacidade humana. Porém, muitas dessas coisas não são um “direito”.

Seja em qual sistema for: Commom Law, Romano-germânico, Lei Islâmica, etc (ver aqui). O “direito” estabelecerá normas de convivência, e qualquer coisa que venha a ferir essas normas, dentro do paradigma aceito, deixa de ser um “direito” (semanticamente falando). É claro, que muitos podem se apegar, ao exemplo da “Antígona” de Sofocles (ver aqui), e questionar se o que é estabelecido como direito realmente é ético (e um direito). Ok. Realmente muitas coisas podem não “se basear na lei”, mas, ser de alguma forma um direito.

No entanto, de forma geral nos apegamos a teoria inicial (natural) do direito (ver aqui) que se baseia na razão (sempre tão maltratada). É racional, ético, correto, “certo” (falarei disso abaixo), uma pessoa (adulto) estuprar um criança? Não! Então ele não tem esse direito. Ele tem apenas a capacidade de fazer tamanha barbaridade. E para isso volto para questão da opinião, as pessoas podem ter a capacidade de falarem o que bem entenderem, mas, a partir do momento em que o que é falado venha a atacar/agredir diretamente outra pessoa (ao meu ver uma agressão verbal pode trazer os mesmos danos de uma agressão física), essa “opinião” deixa de ser um direito e passa a ser passível de punição, etc...etc...

Sobre a questão do “certo” e “errado” outro ponto amplamente debatido. Uso os argumentos de Igor nos comentários da postagem no sociedade racionalista (ver aqui):

Forçar uma criança de quatro anos a ter relações sexuais... é certo ou errado?

Queimar viva uma pessoa... é certo ou errado?

Escravizar humanos... é certo ou errado?

Bem, numa ótica exacerbada (digamos assim) de relativismo moral, nunca iremos ter uma resposta. Isso porque essa ótica se baseia em contestações ad eternum, ou seja, não se busca a resposta, mas sim sempre contestar!

Agora, eu consigo afirmar que as três situações são condutas erradas? Como? Por diversos fatores! Primeiro, em nossa sociedade (brasileira), as três são crimes. Segundo que biologicamente as três impingem dor física e psicológica, causam problemas na saúde e na ordem moral, de igual forma causam sofrimento, e dá ao autor a condição de alterar a vida da outra pessoa – retirando-lhe o controle de sua própria vida. Terceiro que tivemos inúmeros exemplos para demonstrar que ambas as situações são necessariamente más e que devemos repudiá-la, o que nos dá possibilidade de convencionar que tais atitudes hediondas são crimes!

E isso tudo considerando o relativismo moral. Não estou aqui postulando pelo absolutismo moral, que tanto é defendido, por exemplo, em alguns sistemas religiosos!

Isso tudo pode mudar no futuro? Pode, assim como alguma dessas visões foram mudadas diante o passado (a escravidão, por exemplo). E isso demonstra que as sociedades não são meras estruturas inatas, mas sim dinâmicas, sempre agregando novos conhecimentos que possam influir nas convenções sociais. Mas isso também mostra que para não se cair na armadilha do imobilismo, ou seja, ficar parado sem definir nada por ausência de resposta 100% correta (e sempre haverá a probabilidade de erro, mesmo que mínima), teremos em determinado momento, com nossa capacidade de discernimento e com o conhecimento adquirido, ousar, tomar uma posição, convencioná-la e agir de acordo com esta. Isto é o que cria o direito e o dever! Podemos assim ter noção do que é certo ou errado, pois, afinal, mesmo que se chegue a um consenso entre filósofos e teóricos nesta eterna discussão, nós, “os leigos”, iremos ser os juízes da questão!

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Estava lendo um texto na internet sobre o relativismo pós-moderno, e em determinado trecho lembrei justamente deste artigo:

“ Esse relativismo também é pernicioso por tornar a discussão de idéias vazia de sentido. Se cada qual tem sua verdade, não há necessidade de levar a sério os argumentos de outrem ou de justificar as nossas próprias idéias, que também seriam apenas pontos de vista. Um desleixo intelectual que é problemático, pois se todos os discursos se equivalem como meras "narrativas", então somos levados a admitir que mesmo os preconceitos racistas, sexistas e toda forma de fundamentalismos religiosos são igualmente legítimos.”


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"A força do direito deve superar o direito da força".Rui Barbosa